Em uma cena quase ritualística, Wellington, recém-liberto da Fundação Casa, caminha como um estrangeiro em sua própria vida. São Paulo, com suas ruas que alternam asfalto e desejo, sempre o lembra de sua existência: o abandono, a sobrevivência, a urgência de se reinventar. Em Baby, Marcelo Caetano não se limita a documentar a prostituição masculina; ele a eleva a um ensaio sobre o reconhecimento hegeliano. Wellington, agora Baby, busca no olhar alheio não apenas validação, mas a possibilidade de existir como sujeito em um sistema que o reduz a corpo descartável.
A liberdade inicial do protagonista é um convite ao desamparo. Sem família ou rumo, Baby é absorvido pela geografia afetiva de São Paulo, onde Ronaldo (Ricardo Teodoro) surge como figura ambivalente — nem salvador, nem algoz. Sua relação é um intercâmbio de identidades: Ronaldo projeta no jovem a juventude que lhe escapou; Baby, no mais velho, vislumbra uma frágil âncora em meio ao caos. Teodoro traz ao personagem uma vulnerabilidade que transcende clichês, transformando-o no eixo moral da narrativa, ofuscando o próprio protagonista Baby.
Caetano recusa simplificações. Os clientes de Baby não são monstros, mas homens cuja solidão espelha a dos protagonistas. Em uma cena crucial, um ato sexual que começa com brutalidade simbólica deságua em um gesto inesperado de afeto. A câmera, de forma muito íntima, captura não a performance da sedução, mas o tremor quase imperceptível de quem negocia diariamente os limites da própria dignidade. É neste equilíbrio entre crueza e delicadeza que o filme encontra sua força.
A fotografia, porém, oscila entre o poético e o redundante. As tomadas aéreas da cidade, embora impressionantes, pouco acrescentam à narrativa, funcionando como interlúdios decorativos. Já o roteiro, em seu afã abrangente, perde nuances. A invasão do cinema pornô pelo grupo queer, apresentada como ato revolucionário, revela-se éticamente problemática: as vítimas são homens tão marginalizados quanto os protagonistas, aprisionados em sua própria invisibilidade. A crítica social aqui falha em nomear o verdadeiro poder — aquele que mantém pobres lutando contra pobres. Mas é verossímil ao retratar uma comunidade onde um engole o outro.
O cerne do filme está na reinvenção da família como rede de sobrevivência. O vínculo entre Baby, Ronaldo, Priscila e Jana é tecido de conflitos e lealdades movediças, longe de qualquer idealização. Em contraste, a relação com Alexandre, o cliente rico, expõe a hierarquia implacável das classes. Quando ele rejeita Baby, não é por moralismo, mas por reconhecer nele um outsider incapaz de ascender socialmente. A cena é um soco no estômago: mesmo no universo LGBTQ+, o capital dita quem merece pertencer.
A fragilidade do filme reside justamente em sua adoração pelo protagonista. Caetano trata Baby como um ícone de resistência, quase mitológico em sua beleza e resiliência, o que colide com o retrato coletivo que a história pretende construir. Ronaldo, personagem mais complexo e tragicamente humano, mereceria o centro desta trama. Sua queda silenciosa, interpretada por Teodoro com intensidade contida, é ofuscada pela jornada de iniciação do jovem — uma escolha narrativa que diminui a potência crítica da obra.
Baby é um filme que habita contradições. Celebra a afetividade nas margens, mas romantiza a precariedade. Denuncia a violência estrutural, mas por vezes reproduz suas lógicas. Essa ambiguidade, porém, longe de ser um defeito, torna-o visceral. Caetano esculpe um retrato de corpos que, mesmo na invisibilidade, recusam-se a desaparecer.
“Baby”, Marcelo Caetano
Disponível no Stremio




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