Cultivando arte e cultura insurgentes


Ascensão social se transforma em uma tragédia cômica em “A Boba da Corte”

Tati Bernardi expõe, com ferocidade e autocrítica, a solidão de quem ascende sem nunca pertencer

Ascensão social se transforma em uma tragédia cômica em “A Boba da Corte”

Tati Bernardi expõe, com ferocidade e autocrítica, a solidão de quem ascende sem nunca pertencer



Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

A protagonista de A Boba da Corte não quer sua empatia. Ela não é heroína, nem mártir, muito menos uma voz didática sobre mobilidade social. Tati Bernardi constrói uma narrativa que oscila entre a crônica ácida e o manifesto existencial, onde cada piada esconde uma facada, cada gracejo carrega a amargura de quem percebeu que subir degraus sociais é como escalar uma escada rolante que desce. A obra não se contenta em descrever a travessia de classe — ela a decompõe, revelando que a verdadeira ferida não está na partida nem na chegada, mas no abismo entre ambos.

A personagem central — uma versão ficcionalizada da autora — emerge de um universo onde a TV aberta ditava o ritmo doméstico e o sucesso era medido pela capacidade de pagar um dentista. Sua ascensão à elite intelectual paulistana, porém, não a torna uma vencedora, mas uma estrangeira permanente. O que ela descobre não é apenas a distância econômica, mas a violência silenciosa do capital cultural, conceito que Pierre Bourdieu cunhou para descrever os códigos herdados que funcionam como moeda invisível entre os bem-nascidos. Enquanto os ricos exibem diplomas e referências artísticas como prolongamentos naturais de seus corpos, a narradora aprende a colecioná-los como troféus de guerra, armas para invadir um território hostil.

Bernardi não romantiza a pobreza nem demoniza a riqueza; seu alvo é mais sutil. Ataca a falsa consciência de ambos os lados: a idealização ingênua da cultura como redenção e o cinismo daqueles que transformam privilégio em performance. As melhores passagens do livro são justamente as mais incômodas, onde a autora desnuda sua própria ambiguidade. Ela ri dos jantares onde discute Proust com a mesma veemência com que despreza os antigos colegas de bairro — e nesse riso, ecoa o desconforto de quem sabe que está traindo algo em si mesma.

O humor aqui é um confronto. Quando zomba da pronúncia afetada da Zona Oeste ou do fetichismo burguês por “experiências autênticas” no campo, a narrativa revela seu trunfo: a capacidade de transformar ressentimento em arte. Mas há um preço. A personagem torna-se especialista em decifrar linguagens alheias, perdendo no processo a possibilidade de uma voz própria. Seus relacionamentos amorosos, por exemplo, são sátiras cruéis de um desejo que mistura atração e vingança. O namorado que coleciona pós-graduações no exterior não é amado, mas devorado — um troféu que prova sua capacidade de infiltrar-se no clube fechado dos herdeiros.

É nesse ponto que o livro escapa às comparações fáceis com Annie Ernaux ou Édouard Louis. Enquanto esses autores usam a trajetória pessoal para mapear estruturas sociais, Bernardi faz o oposto: usa a estrutura social como espelho para uma crise íntima. Seu estilo — fragmentado, quase febril — reflete a incoerência de quem vive em dois mundos sem habitar nenhum. A opção por capítulos que lembram crônicas soltas, em vez de um romance convencional, não é falha, mas estratégia. A falta de linearidade imita a própria experiência da mobilidade social: uma sucessão de episódios desconexos onde o passado é vergonha e o presente, impostura.

Mas há fissuras. A tentativa de dar arcabouço romanesco ao primeiro e último capítulos soa artificial, como se a autora duvidasse da potência de sua própria voz. São justamente nas passagens mais cruas, onde o texto assume plenamente seu caráter de confissão raivosa, que a obra alcança sua força. Quando descreve editores homens sugerindo que “amadureça” abandonando o autobiográfico, ou quando narra o episódio hilário (e trágico) em que mostra as nádegas para colegas publicitários antes de pedir demissão, Bernardi encontra seu tom ideal: niilista o suficiente para desconstruir tudo, mas vulnerável o bastante para não fingir que isso a liberta.

A Boba da Corte não é um manual sobre trânsito de classes, nem uma denúncia política — é o diário de uma invasão fracassada. A personagem não conquista seu lugar ao sol; aprende, em vez disso, que o sol das elites queima mas não aquece. O final não traz epifania, apenas o reconhecimento de que o verdadeiro privilégio não é ter onde recostar-se, mas poder descansar sem calcular cada movimento. Nesse sentido, Bernardi escreve menos sobre ascensão social e mais sobre os limites da linguagem: as palavras que conquistou a tornaram estrangeira em todas as pátrias. Restou-lhe o riso — arma dos que não têm armas, refúgio dos que não têm lar.


“A Boba da Corte”, Tati Bernardi
Editora Fósforo

Avaliação: 4 de 5.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading