A primeira cena é saliva no rosto. É um menino gay de dez anos que apanha no corredor da escola. E isso não é um acontecimento isolado, mas o retrato diário de um menino que falha em se encaixar. O Fim de Eddy, de Édouard Louis, é um romance autobiográfico disfarçado de ficção, ou uma ficção que não faz esforço algum para disfarçar que tudo ali é memória. O autor mata seu nome, seu passado, sua terra natal e sua infância neste livro. Mas não o faz com drama nem escândalo.
Eddy Bellegueule, sobrenome que pode ser traduzido como “cara bonita” e que carrega consigo uma ironia cruel, nasce num vilarejo pobre do norte da França, num ambiente onde o gênero masculino é um regime de controle, e qualquer desvio dele é um crime de existência. Eddy não performa a masculinidade aceitável: ele fala com a voz fina, gesticula demais, recusa a comida dos outros meninos. Ele não escolheu isso, mas também não teve chance de escapar disso. Na sua vila, ser diferente é uma sentença social. E o crime não é fazer algo, mas ser algo.
Édouard Louis se recusa a escrever um manifesto ou um desabafo. O autor não se entrega à autopiedade, nem faz do texto uma denúncia com vocação para redenção. O que ele faz é mais brutal: ele relata. Descreve os episódios de bullying, as tentativas de performar o masculino, os abusos psicológicos, os jantares silenciosos com a televisão sempre ligada, as agressões de um irmão, os rituais para tentar ser um homem de verdade. É uma literatura do desconforto, sem subterfúgios, sem adornos. A crueza está no estilo, mas também no conteúdo.
A grandeza de O Fim de Eddy está no fato de que o autor não demoniza sua família nem seu vilarejo. A mãe, o pai, os vizinhos, todos são vítimas de uma cultura que os precede. Louis não se permite odiá-los completamente, e esse é talvez o gesto mais radical do livro: o autor aceita a ambivalência. Seu pai, um homem alcoólatra que mata filhotes de gato jogando-os contra o concreto, é também aquele que protege o filho quando pode. Sua mãe, que se envergonha dos buracos nas paredes de casa, tenta com palavras simples manter alguma dignidade. Esses personagens não são redimidos, mas tampouco são descartados. Há neles uma humanidade confusa, que fere sem entender muito bem por que fere.
A escrita de Louis é seca como um relatório corporativo, mas em alguns trechos escapa uma ternura tímida, quase involuntária. Não há metáforas, não há lirismo ornamental. O horror está justamente na banalidade do que é narrado. A violência não é exceção, é rotina. O racismo, a misoginia, o ódio aos pobres, aos árabes, aos homossexuais, tudo é proferido entre um gole de vinho barato e uma piada sem graça. O autor não procura causas psicológicas para o comportamento de seus agressores, ele mostra como a estrutura social produz esses sujeitos. Como diria Bourdieu, o habitus define os limites do possível.
Eddy tenta se encaixar. Reza, toda manhã, a mesma frase patética: “Hoje vou ser um cara durão”. Tenta namorar uma menina. Tenta se calar. Tenta andar diferente. Tudo em vão. O corpo o trai. E é nesse esforço contínuo e fracassado de se apagar que o livro se torna quase insuportável. Porque a dor que Eddy sente não é só a do corpo agredido, mas a do desejo de ser aceito por quem o rejeita. Ele não é um rebelde, não é um mártir. É um menino que só queria pertencer.
Quando a narrativa se rompe e o tempo se acelera, há uma fresta de fuga. Eddy vira Édouard. Troca o nome, a cidade, a vida. Não há glória nessa virada, apenas a possibilidade de continuar vivo. E talvez esse seja o gesto mais filosófico do livro: afirmar que mudar é possível, mesmo quando tudo ao redor parece determinado a nos fixar num lugar de vergonha e silêncio.
O Fim de Eddy impõe uma experiência. É um livro que você lê e depois permanece. E não porque ele quer chocar ou emocionar, mas porque ele simplesmente se recusa a mentir. E nesse mundo saturado de narrativas reconfortantes, essa honestidade radical é um feito literário.
“O Fim de Eddy”, Édouard Louis
Tusquets








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