A viagem de Chihiro começa não com um estrondo, mas com o resmungo de uma criança de dez anos no banco de trás de um carro, descontente com a mudança para uma nova cidade. Num desvio equivocado, a sua família descobre o que parece ser um parque temático abandonado. Guiada pela curiosidade e pelo apetite descontrolado dos seus pais, ela atravessa um túnel para um mundo que pulsa com uma magia antiga e esquecida. O banquete que encontram é uma armadilha, e a gula transforma os seus pais em porcos, aprisionando Chihiro num reino regido por deuses, espíritos e monstros.
Sob o comando da formidável bruxa Yubaba, proprietária de uma opulenta casa de banhos para o sobrenatural, Chihiro é despojada do seu nome e da sua identidade, tornando-se “Sen”. A regra é brutalmente simples: trabalhe ou desapareça. É aqui, neste microcosmo de um Japão espiritual, que a sua jornada de sobrevivência se transforma numa odisseia de autodescoberta. Auxiliada pelo enigmático Haku, um rapaz com os seus próprios segredos, e por um elenco de personagens que vão do grotesco ao comovente, Sen navega pelas suas tarefas. Ela aprende o valor do trabalho, da gentileza e da coragem, purificando um espírito poluído de um rio e confrontando a solidão voraz de uma criatura sem rosto conhecida como Kaonashi.
O que se desenrola é menos uma fantasia de ação e mais uma alegoria subtil sobre a transição para a maturidade, a ganância da sociedade moderna e a erosão da tradição. A mestria de Hayao Miyazaki transforma uma premissa de conto de fadas numa tapeçaria visualmente deslumbrante e emocionalmente ressonante. A Viagem de Chihiro não é sobre derrotar um vilão, mas sobre encontrar a força interior para navegar num mundo indiferente, lembrando-se de quem se é quando todos à volta tentam fazer-nos esquecer.









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