Na Inglaterra de um futuro próximo e desconcertantemente estilizado, o carismático sociopata Alex DeLarge tem um ritual noturno bem definido: um copo de leite-com-qualquer-coisa na Korova Milk Bar, uma dose de Ludwig Van e uma noite de ultraviolência desenfreada. Acompanhado pelos seus “droogs”, ele comanda uma sinfonia de caos com uma bengala e um sorriso, transformando agressão e violação numa forma perversa de arte performática, tudo ao som da Nona Sinfonia de Beethoven. A sua narrativa, contada na sua própria e inventiva gíria “Nadsat”, não pede simpatia, mas exige atenção.
Quando a sua sorte acaba e ele é traído pelos seus próprios comparsas, o Estado apresenta uma solução vanguardista para o seu “problema”: o Tratamento Ludovico. Uma terapia de aversão radical que promete erradicar os seus impulsos mais sombrios, transformando-o num cidadão modelo à força. Com os olhos presos por grampos, Alex é forçado a assistir a imagens de violência extrema até que o seu corpo e mente o rejeitem de forma visceral. O efeito secundário, numa das ironias mais cruéis do cinema, é que o tratamento também o torna fisicamente doente ao ouvir a sua amada música clássica.
Libertado de volta para a sociedade, “curado” e incapaz de se defender, Alex torna-se um pária impotente num mundo que não se tornou menos brutal. As suas antigas vítimas procuram vingança, os seus antigos amigos agora vestem uniformes da polícia e os intelectuais que antes o condenavam veem nele um peão político perfeito para atacar o governo. O caçador torna-se a caça, e a sua jornada transforma-se numa sátira cortante sobre a hipocrisia social e a natureza do poder.
Kubrick não oferece respostas fáceis, apenas uma visão clínica e estilizada que levanta a questão fundamental: o que é preferível, um homem que escolhe ser mau ou um homem que é forçado a ser bom? Através de uma estética inesquecível e de uma performance magnética de Malcolm McDowell, o filme explora se a liberdade de escolha, mesmo a escolha pela maldade, é a essência irredutível da humanidade. No final, a “cura” de Alex revela-se tão desumana quanto os seus crimes, deixando o espectador a questionar a verdadeira definição de moralidade numa sociedade que anseia por ordem a qualquer custo.
“Laranja Mecânica” está disponível no MUBI.









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