Numa Hong Kong que parece flutuar fora do tempo, banhada por uma luz nostálgica e ritmada por um jazz suave, Johnnie To abandona temporariamente as suas baladas de balas para orquestrar um delicado ballet urbano. Kei é o líder de um pequeno e unido grupo de batedores de carteira, conhecidos como “pardais”. Eles não são criminosos vulgares, mas sim artesãos do furto, cujos movimentos pelas ruas movimentadas da cidade são uma dança de precisão e elegância, executada com bicicletas e uma leitura quase telepática do fluxo da multidão. A sua vida é um exercício de liberdade e camaradagem, pontuada por pequenos lucros e uma camaradagem despreocupada.
Esta harmonia é sedutoramente interrompida pela chegada de Chun-Lei, uma beleza enigmática e melancólica do Continente, cuja presença é tão cativante quanto perturbadora. Ela parece ser uma prisioneira numa gaiola dourada, sob o controlo do envelhecido e poderoso gângster Mr. Fu. Com um apelo silencioso, ela recruta os pardais para uma missão aparentemente simples, mas impossível: roubar uma única chave que promete a sua liberdade. O que se segue não é um thriller de assalto convencional, mas um requintado jogo de gato e rato, uma competição de destreza e charme entre a velha guarda e os ágeis oportunistas.
To transforma a cidade numa tela, e o crime num espetáculo de pura cinefilia. O filme culmina não numa explosão de violência, mas numa cena de antologia: um duelo silencioso de destreza manual sob uma chuva torrencial, onde guarda-chuvas se tornam armas e escudos numa sinfonia de mãos ágeis. ‘Sparrow’ é menos uma história de crime e mais uma carta de amor a uma Hong Kong que se desvanece, uma homenagem cinematográfica à Nouvelle Vague francesa e aos musicais de Jacques Demy, provando que, nas mãos de um mestre, até o mais pequeno dos atos pode tornar-se uma obra de arte.
“Sparrow” está disponível no MUBI.









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