Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “Elefante”(2003), Gus Van Sant

Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

Num dia de outono aparentemente banal numa escola secundária suburbana americana, a câmara de Gus Van Sant vagueia com uma calma hipnótica. Seguimos John, que chega atrasado depois de uma discussão com o pai alcoólico; Elias, um aspirante a fotógrafo que procura modelos nos corredores; e um trio de amigas mais preocupadas com calorias e fofocas do que com as aulas. O sol da tarde entra pelas janelas, criando longas sombras no chão encerado, e o som ambiente é uma mistura de conversas distantes, armários a bater e o eco de passos. Noutro ponto, Alex e Eric recebem uma encomenda em casa, jogam um videojogo de tiros e tomam banho juntos. O que se desenrola não é uma construção de suspense, mas uma acumulação de momentos mundanos que, sem aviso, convergem para um plano meticuloso e letal. ‘Elefante’ documenta as horas que antecedem um tiroteio em massa, retratando tanto as vítimas como os perpetradores com a mesma distância impassível.

A força do filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, reside na sua abordagem formalista e na sua recusa em oferecer uma tese sociológica ou psicológica para o ato. A cinematografia de Harris Savides, com os seus célebres e longos planos-sequência, transforma o espectador num observador fantasmagórico, flutuando pelos corredores e espaços da escola. A narrativa fragmentada revisita os mesmos instantes a partir de diferentes perspetivas, criando uma sensação de inevitabilidade e desorientação temporal. Van Sant não procura causas nem aponta dedos; em vez disso, ele apresenta uma sequência de eventos com uma objetividade quase clínica. A violência, quando chega, é factual, desprovida de qualquer espetacularização. É aqui que o conceito da banalidade do mal de Hannah Arendt encontra uma ressonância perturbadora: o horror emerge não de uma monstruosidade explícita, mas da execução metódica de uma tarefa por jovens que, momentos antes, tocavam Beethoven ao piano ou discutiam a sua estratégia.

Ao despir o evento de uma narrativa convencional, ‘Elefante’ posiciona-se como uma obra de cinema que se debruça sobre a superfície das coisas para sugerir um vazio insondável. Não há um aprofundamento nos passados dos atiradores que justifique as suas ações de forma conclusiva, apenas fragmentos de bullying, alienação e uma fascinação casual pela cultura das armas. O resultado é uma peça de cinema profundamente desconcertante, um estudo atmosférico sobre a fragilidade da normalidade e a natureza opaca de certas erupções de violência na sociedade contemporânea. A sua influência perdura precisamente pela sua contenção, deixando uma impressão duradoura através do que mostra e, mais significativamente, do que se abstém de explicar.

Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

Num dia de outono aparentemente banal numa escola secundária suburbana americana, a câmara de Gus Van Sant vagueia com uma calma hipnótica. Seguimos John, que chega atrasado depois de uma discussão com o pai alcoólico; Elias, um aspirante a fotógrafo que procura modelos nos corredores; e um trio de amigas mais preocupadas com calorias e fofocas do que com as aulas. O sol da tarde entra pelas janelas, criando longas sombras no chão encerado, e o som ambiente é uma mistura de conversas distantes, armários a bater e o eco de passos. Noutro ponto, Alex e Eric recebem uma encomenda em casa, jogam um videojogo de tiros e tomam banho juntos. O que se desenrola não é uma construção de suspense, mas uma acumulação de momentos mundanos que, sem aviso, convergem para um plano meticuloso e letal. ‘Elefante’ documenta as horas que antecedem um tiroteio em massa, retratando tanto as vítimas como os perpetradores com a mesma distância impassível.

A força do filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, reside na sua abordagem formalista e na sua recusa em oferecer uma tese sociológica ou psicológica para o ato. A cinematografia de Harris Savides, com os seus célebres e longos planos-sequência, transforma o espectador num observador fantasmagórico, flutuando pelos corredores e espaços da escola. A narrativa fragmentada revisita os mesmos instantes a partir de diferentes perspetivas, criando uma sensação de inevitabilidade e desorientação temporal. Van Sant não procura causas nem aponta dedos; em vez disso, ele apresenta uma sequência de eventos com uma objetividade quase clínica. A violência, quando chega, é factual, desprovida de qualquer espetacularização. É aqui que o conceito da banalidade do mal de Hannah Arendt encontra uma ressonância perturbadora: o horror emerge não de uma monstruosidade explícita, mas da execução metódica de uma tarefa por jovens que, momentos antes, tocavam Beethoven ao piano ou discutiam a sua estratégia.

Ao despir o evento de uma narrativa convencional, ‘Elefante’ posiciona-se como uma obra de cinema que se debruça sobre a superfície das coisas para sugerir um vazio insondável. Não há um aprofundamento nos passados dos atiradores que justifique as suas ações de forma conclusiva, apenas fragmentos de bullying, alienação e uma fascinação casual pela cultura das armas. O resultado é uma peça de cinema profundamente desconcertante, um estudo atmosférico sobre a fragilidade da normalidade e a natureza opaca de certas erupções de violência na sociedade contemporânea. A sua influência perdura precisamente pela sua contenção, deixando uma impressão duradoura através do que mostra e, mais significativamente, do que se abstém de explicar.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo