Num dia de outono aparentemente banal numa escola secundária suburbana americana, a câmara de Gus Van Sant vagueia com uma calma hipnótica. Seguimos John, que chega atrasado depois de uma discussão com o pai alcoólico; Elias, um aspirante a fotógrafo que procura modelos nos corredores; e um trio de amigas mais preocupadas com calorias e fofocas do que com as aulas. O sol da tarde entra pelas janelas, criando longas sombras no chão encerado, e o som ambiente é uma mistura de conversas distantes, armários a bater e o eco de passos. Noutro ponto, Alex e Eric recebem uma encomenda em casa, jogam um videojogo de tiros e tomam banho juntos. O que se desenrola não é uma construção de suspense, mas uma acumulação de momentos mundanos que, sem aviso, convergem para um plano meticuloso e letal. ‘Elefante’ documenta as horas que antecedem um tiroteio em massa, retratando tanto as vítimas como os perpetradores com a mesma distância impassível.
A força do filme, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, reside na sua abordagem formalista e na sua recusa em oferecer uma tese sociológica ou psicológica para o ato. A cinematografia de Harris Savides, com os seus célebres e longos planos-sequência, transforma o espectador num observador fantasmagórico, flutuando pelos corredores e espaços da escola. A narrativa fragmentada revisita os mesmos instantes a partir de diferentes perspetivas, criando uma sensação de inevitabilidade e desorientação temporal. Van Sant não procura causas nem aponta dedos; em vez disso, ele apresenta uma sequência de eventos com uma objetividade quase clínica. A violência, quando chega, é factual, desprovida de qualquer espetacularização. É aqui que o conceito da banalidade do mal de Hannah Arendt encontra uma ressonância perturbadora: o horror emerge não de uma monstruosidade explícita, mas da execução metódica de uma tarefa por jovens que, momentos antes, tocavam Beethoven ao piano ou discutiam a sua estratégia.
Ao despir o evento de uma narrativa convencional, ‘Elefante’ posiciona-se como uma obra de cinema que se debruça sobre a superfície das coisas para sugerir um vazio insondável. Não há um aprofundamento nos passados dos atiradores que justifique as suas ações de forma conclusiva, apenas fragmentos de bullying, alienação e uma fascinação casual pela cultura das armas. O resultado é uma peça de cinema profundamente desconcertante, um estudo atmosférico sobre a fragilidade da normalidade e a natureza opaca de certas erupções de violência na sociedade contemporânea. A sua influência perdura precisamente pela sua contenção, deixando uma impressão duradoura através do que mostra e, mais significativamente, do que se abstém de explicar.









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