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Filme: “Os Sapatinhos Vermelhos”(1948), Michael Powell, Emeric Pressburger

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Numa Europa pós-guerra que tenta redescobrir a beleza, o mundo febril do balé de alta classe é o palco onde se desenrola a narrativa de ‘Os Sapatinhos Vermelhos’, a obra-prima em Technicolor de Michael Powell e Emeric Pressburger. A história segue a ascensão meteórica de Victoria “Vicky” Page, uma jovem e talentosa bailarina cuja ambição só é igualada pela sua paixão. O seu caminho cruza-se com o de duas figuras determinantes: o carismático e implacável Boris Lermontov, um empresário que comanda a sua companhia de balé com a devoção de um sumo sacerdote e a precisão de um general, e Julian Craster, um jovem compositor de génio, igualmente impulsionado pela sua arte. Lermontov vê em Vicky a matéria-prima para a sua próxima grande criação, o balé “Os Sapatinhos Vermelhos”, baseado no conto de fadas sombrio de Hans Christian Andersen, e encarrega Julian de compor a partitura que irá definir uma geração.

O que se segue não é um simples triângulo amoroso, mas a colisão sísmica entre a devoção absoluta à arte e as exigências da vida pessoal. À medida que o balé se torna um sucesso estrondoso e Vicky é catapultada para o estrelato, ela e Julian apaixonam-se, forjando um vínculo que Lermontov considera uma traição, não a ele, mas à própria Arte. Para o empresário, interpretado com uma austeridade magnética por Anton Walbrook, o amor, o casamento e a felicidade doméstica são distrações mundanas que corrompem o sublime. A sua famosa pergunta a Vicky, “Por que você quer dançar?”, e a sua resposta, “Por que você quer viver?”, estabelecem os termos de um conflito irredutível. A questão fundamental do filme não é se a arte imita a vida, mas se uma vida dedicada à arte pode sequer coexistir com qualquer outra forma de viver.

Powell e Pressburger utilizam a paleta saturada do Technicolor não como um mero adorno, mas como uma ferramenta psicológica, pintando as emoções dos seus personagens no próprio tecido do filme. A célebre sequência de balé de 17 minutos é um marco cinematográfico, uma imersão vertiginosa na psique de Vicky, onde a realidade do palco se dissolve numa torrente surrealista de imagens que externalizam os seus desejos, medos e o poder consumidor da sua vocação. O dilema de Vicky não é uma simples escolha entre carreira e romance, mas um confronto com o seu próprio *daemon*, o génio criativo que, uma vez despertado pelos sapatinhos, exige servidão completa. ‘Os Sapatinhos Vermelhos’ permanece uma análise incisiva e visualmente deslumbrante sobre a natureza da ambição e o preço, por vezes fatal, que a busca pela perfeição artística pode exigir.

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Numa Europa pós-guerra que tenta redescobrir a beleza, o mundo febril do balé de alta classe é o palco onde se desenrola a narrativa de ‘Os Sapatinhos Vermelhos’, a obra-prima em Technicolor de Michael Powell e Emeric Pressburger. A história segue a ascensão meteórica de Victoria “Vicky” Page, uma jovem e talentosa bailarina cuja ambição só é igualada pela sua paixão. O seu caminho cruza-se com o de duas figuras determinantes: o carismático e implacável Boris Lermontov, um empresário que comanda a sua companhia de balé com a devoção de um sumo sacerdote e a precisão de um general, e Julian Craster, um jovem compositor de génio, igualmente impulsionado pela sua arte. Lermontov vê em Vicky a matéria-prima para a sua próxima grande criação, o balé “Os Sapatinhos Vermelhos”, baseado no conto de fadas sombrio de Hans Christian Andersen, e encarrega Julian de compor a partitura que irá definir uma geração.

O que se segue não é um simples triângulo amoroso, mas a colisão sísmica entre a devoção absoluta à arte e as exigências da vida pessoal. À medida que o balé se torna um sucesso estrondoso e Vicky é catapultada para o estrelato, ela e Julian apaixonam-se, forjando um vínculo que Lermontov considera uma traição, não a ele, mas à própria Arte. Para o empresário, interpretado com uma austeridade magnética por Anton Walbrook, o amor, o casamento e a felicidade doméstica são distrações mundanas que corrompem o sublime. A sua famosa pergunta a Vicky, “Por que você quer dançar?”, e a sua resposta, “Por que você quer viver?”, estabelecem os termos de um conflito irredutível. A questão fundamental do filme não é se a arte imita a vida, mas se uma vida dedicada à arte pode sequer coexistir com qualquer outra forma de viver.

Powell e Pressburger utilizam a paleta saturada do Technicolor não como um mero adorno, mas como uma ferramenta psicológica, pintando as emoções dos seus personagens no próprio tecido do filme. A célebre sequência de balé de 17 minutos é um marco cinematográfico, uma imersão vertiginosa na psique de Vicky, onde a realidade do palco se dissolve numa torrente surrealista de imagens que externalizam os seus desejos, medos e o poder consumidor da sua vocação. O dilema de Vicky não é uma simples escolha entre carreira e romance, mas um confronto com o seu próprio *daemon*, o génio criativo que, uma vez despertado pelos sapatinhos, exige servidão completa. ‘Os Sapatinhos Vermelhos’ permanece uma análise incisiva e visualmente deslumbrante sobre a natureza da ambição e o preço, por vezes fatal, que a busca pela perfeição artística pode exigir.

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