Em meio ao néon vermelho e às ruas úmidas de Little Italy, nos anos 70, acompanhamos Charlie Cappa, um jovem coletor de dívidas que tenta equilibrar as coisas. De um lado, está sua ambição de ascender na estrutura de poder controlada por seu tio, um influente mafioso local que lhe promete um restaurante e respeitabilidade. Do outro, pesam sua devoção católica, que o enche de culpa, e sua lealdade quase paternal a Johnny Boy, um amigo de infância interpretado por um elétrico e imprevisível Robert De Niro. Johnny Boy é pura dinamite, um apostador compulsivo que deve dinheiro a todos os agiotas do bairro e que se deleita em provocar figuras perigosas. A equação se complica com a presença de Teresa, prima de Johnny Boy, com quem Charlie mantém um relacionamento secreto, visto que seu tio a desaprova por ela sofrer de epilepsia.
A narrativa de Caminhos Perigosos se desenrola não em grandes golpes ou conspirações, mas na tensão crescente gerada pelos atos de Johnny Boy e nas tentativas cada vez mais desesperadas de Charlie para protegê-lo. Cada ato de mediação de Charlie, cada favor pedido para cobrir uma dívida do amigo, mina sua própria credibilidade com as pessoas que importam, afastando-o do futuro que almeja. O filme de Martin Scorsese constrói sua força na crônica dessa lealdade tóxica, mostrando como o desejo de Charlie de salvar a alma de Johnny Boy acaba por colocar a sua própria em risco, tanto no sentido espiritual quanto no pragmático mundo do crime de rua, onde um deslize pode ser o último.
O que torna a obra uma peça fundamental no cinema americano é a forma como Scorsese recusa a romantização. A câmera na mão, nervosa e documental, mergulha o espectador na atmosfera febril e claustrofóbica do bairro, enquanto a trilha sonora, que vai de The Rolling Stones a óperas italianas, funciona como um comentário direto sobre o estado de espírito dos personagens. É aqui que a jornada de Charlie pode ser vista através do conceito de má-fé sartreana. Ele age como se sua lealdade a Johnny Boy fosse um destino inescapável, uma obrigação sagrada, quando, na verdade, é uma série de escolhas que o isentam de encarar o pragmatismo brutal exigido por suas próprias aspirações. Ele se engana para manter uma imagem de si mesmo que considera moralmente aceitável, mesmo que isso o conduza à ruína.
Ao final, Caminhos Perigosos estabeleceu-se como o protótipo do estilo de seu diretor e um marco da Nova Hollywood. É um estudo de personagem visceral sobre a impossibilidade de conciliar a santidade com o pecado no asfalto. A química crua entre Harvey Keitel e Robert De Niro oferece atuações que definiram uma geração de atores, capturando a energia de homens jovens presos entre códigos de honra ultrapassados e um futuro que talvez nunca chegue. O longa solidificou um novo tipo de realismo no cinema de crime, um em que a salvação e a danação são decididas não em grandes salões, mas em bares escuros ao som de uma jukebox.









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