Laurence Anyways, do enfant terrible Xavier Dolan, é uma imersão visceral em um relacionamento testado pela revelação da identidade de gênero. Não se trata de uma narrativa de transição, mas sim da dissecação de um amor posto à prova pelas transformações internas de Laurence, um professor de literatura que, aos 35 anos, decide viver como mulher. O filme é um mergulho profundo na dinâmica complexa entre Laurence e Fred, sua apaixonada e tempestuosa companheira.
A força motriz da trama reside na recusa de Dolan em oferecer um conto edificante ou moralizante. Ele opta por uma representação honesta, por vezes desconcertante, das dificuldades enfrentadas por ambos. A câmera captura a euforia da descoberta, a dor da rejeição, a angústia da incompreensão e a persistente chama de um afeto que desafia rótulos e convenções. A fotografia exuberante e a trilha sonora eclética amplificam as emoções em cena, criando uma experiência sensorial intensa.
Em vez de se ater a uma linearidade cronológica, Dolan fragmenta o tempo, tecendo uma colagem de momentos marcantes que revelam a progressiva erosão e a eventual reconstrução do relacionamento. A narrativa se desenrola em um crescendo de conflitos e reconciliações, expondo as fragilidades e a resiliência do amor. A obra levanta questões sobre a autenticidade, a liberdade individual e a capacidade humana de amar incondicionalmente, mesmo diante do que parece irreconciliável. A jornada de Laurence se assemelha à busca por uma forma de “tornar-se”, no sentido deleuziano, um processo contínuo de transformação e auto descoberta que redefine a própria essência da identidade.









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