Cultivando arte e cultura insurgentes



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A primeira frase do livro é um diagnóstico: “Precisei declarar-me louco.” Paul B. Preciado parte daí para escrever o que não é exatamente um diário da pandemia, tampouco um manifesto político, nem propriamente um ensaio filosófico ou uma autobiografia. Dysphoria Mundi é tudo isso e nada disso. O texto se desenrola como uma espécie de liturgia disfuncional, composta por orações fúnebres, delírios metafóricos, descrições ensaísticas e um profundo incômodo com o presente.

Preciado reconstrói o termo “disforia” a partir do seu uso nos sistemas psiquiátricos que regulam os corpos trans. Um diagnóstico, por definição, patologiza. Ao se insurgir contra isso, o autor alarga a ideia de disforia até torná-la uma linguagem capaz de nomear uma condição generalizada: viver sob um regime petrosexoracial capitalista, que extrai até o esgotamento tanto dos corpos quanto do planeta. A disforia, nesse sentido, não é exclusividade de quem passa por um processo de transição de gênero, mas uma percepção aguda de que as estruturas em que vivemos são insuportáveis. E que talvez tenham sido sempre.

Ao longo de quase 500 páginas, o livro alterna registros: há trechos confessionais, reflexões teóricas, orações sarcásticas que se dirigem a entidades como “Nossa Senhora da ExxonMobil” ou “Nossa Senhora da Vigilância Digital”. Mas apesar da dispersão aparente, tudo gravita em torno da mesma tese: o mundo atual — marcado por pandemias, colapsos ambientais, violência racial e sexual, necropolítica estatal e vigilância algorítmica — não está doente, ele é a própria doença. E reconhecer isso, ainda que nos destrua, pode ser a chave para uma mutação coletiva.

Preciado propõe, de forma provocadora, que o vírus da COVID-19 funcionou como um agente revelador. Para ele, a pandemia não criou nada de novo, apenas escancarou a arquitetura social já existente, expondo suas linhas de força: quem vive, quem morre, quem cuida, quem manda, quem some. Ao mesmo tempo em que se enclausurava em seu apartamento europeu para trabalhar remotamente, o autor nos lembra, com algum atraso, que milhões de pessoas continuavam se expondo em transportes lotados, enfermarias precárias ou fábricas invisíveis. Ao comparar o confinamento de um cidadão europeu ao de migrantes em campos de detenção, sua analogia escorrega: por vezes, Preciado esquece que o lugar de onde escreve não é neutro. Mas talvez essa fricção entre privilégio e discurso também componha o livro. Dysphoria Mundi é atravessado por suas próprias contradições.

A escrita de Preciado assume um estilo híbrido, ora exaltado, ora zombeteiro, pontuado por listas, comparações e neologismos. Ao nomear o mundo com palavras como “petrosexoracial” ou “farmacopornográfico”, o autor expõe a artificialidade das categorias que nos organizam. Seu jogo é perigoso: ao exagerar, corre o risco de banalizar o que nomeia. Mas o exagero é calculado, Preciado não está preocupado em parecer razoável, ele parece deliberadamente hiperbólico.

Há um conceito que percorre o livro sem ser nomeado explicitamente, mas que o atravessa: o de hauntologia, formulado por Derrida. O passado, como um fantasma, continua nos assombrando. E a pandemia, ao paralisar o tempo, fez com que as assombrações ganhassem corpo. Preciado escreve a partir desse assombro. O que aparece na forma de poesia é, em verdade, um diagnóstico político: o que nos mata não é a disforia, é a normatividade.

O livro também atira contra instituições religiosas, sobretudo a Igreja Católica, que o autor descreve como arquitetura da violência patriarcal. Ao afirmar que a ameaça à infância não é a homossexualidade ou a identidade trans, mas sim o poder eclesiástico que acoberta crimes sistemáticos, Preciado desloca o olhar: o perigo não está onde a moral aponta, mas na própria estrutura moral.

O texto avança sobre outras frentes: crítica ambiental, denúncias ao extrativismo tecnológico, ataques ao colonialismo epistêmico. Em determinado momento, ele descreve as condições de trabalho na Foxconn, a fábrica chinesa que produz boa parte dos dispositivos eletrônicos do mundo, como a distopia já realizada do capitalismo digital. A disforia, então, deixa de ser algo subjetivo e se torna um sintoma do mundo.

Mas Dysphoria Mundi não termina no desespero. Seus capítulos finais apontam para outra possibilidade: a de que os corpos rejeitados pela norma — trans, racializados, deficientes, insubmissos — possam ser, justamente, os que abrem caminho para uma nova forma de vida. A disforia, nesse gesto, vira método. O que nos incomoda é o que nos move. Não se trata de glorificar a dor, mas de transformá-la em ferramenta crítica. Ou, como escreve o próprio autor: “A disforia é ruim. Mas é também nossa verdade.”

Não é um livro fácil. Nem deve ser. É confuso, grandioso, excessivo, brilhante. Fala demais, mas fala coisas que precisam ser ouvidas. Preciado escreve como quem esbraveja em praça pública, como um Zaratustra contemporâneo que desceu da montanha, mas também como quem sussurra a um cúmplice. Em um tempo que se empenha em anestesiar o pensamento, Dysphoria Mundi é um grito desconcertante, desconfortável.


“Dysphoria Mundi”, Paul B. Preciado

Zahar

Avaliação: 5 de 5.

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Comments (

1

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  1. Mundo Pós-Pornográfico e Biopolítica do Desejo – Arquivo Vivo

    […] “Dysphoria Mundi” é uma declaração de guerra contra o mundo como ele é.Românticos Radicais […]

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