Num subúrbio ensolarado e meticulosamente organizado do Japão do pós-guerra, a vida segue um ritmo de pequenos rituais cotidianos. As saudações matinais, as conversas sobre o tempo e as fofocas trocadas sobre as cercas de madeira pintam o retrato de uma comunidade em transição. No centro desta paisagem de aparências está a família Hayashi e os seus dois jovens filhos, Minoru e Isamu. Obcecados pelo emergente mundo da televisão e pelos seus combates de sumo, os rapazes iniciam uma campanha para que os pais comprem um aparelho. Perante a recusa, eles empregam a sua arma mais poderosa: um voto de silêncio. A greve das palavras dos irmãos cria uma onda de choque que vai muito além das paredes da sua casa, expondo as fissuras e absurdos nas convenções sociais dos adultos.
O silêncio das crianças torna-se um catalisador que revela a vacuidade da comunicação adulta. Enquanto Minoru e Isamu se recusam a proferir as saudações inúteis que os pais tanto valorizam, o mundo dos mais velhos continua a girar em torno de conversas fiadas, suspeitas veladas sobre o desaparecimento das quotas do clube de bairro e julgamentos apressados sobre os vizinhos que ousam ser diferentes. Yasujirô Ozu constrói uma comédia social brilhante a partir deste conflito. A recusa dos rapazes em participar no teatro social dos adultos força todos ao seu redor a confrontar a natureza das suas próprias interações. O filme observa, com um humor afiado e uma ternura imensa, como a teimosia infantil pode ser mais lógica do que a conformidade adulta.
Com uma paleta de cores vibrantes em Agfacolor e a sua característica câmara posicionada ao nível do chão, Ozu não está interessado em grandes dramas, mas sim na comédia que emerge das pequenas incongruências da vida. A obra examina, de forma quase lúdica, os “jogos de linguagem” que definem diferentes estratos sociais. Os adultos participam num jogo de comunicação fática, onde as palavras servem para manter a harmonia social, não para transmitir informação. As crianças, por outro lado, veem a linguagem de forma literal e transacional: se as palavras não lhes conseguem um aparelho de televisão, para que servem? Neste universo de mesuras e piadas sobre flatulência, ‘Bom Dia’ é uma análise astuta sobre a modernização, o fosso entre gerações e a busca por uma comunicação autêntica num mundo cada vez mais preenchido por ruído.









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