Numa Paris de um futuro próximo e estranhamente familiar, uma doença misteriosa chamada STBO assola a cidade, ceifando a vida daqueles que fazem amor sem amor. É neste cenário de apatia contagiosa que dois criminosos envelhecidos, Marc e Hans, se veem em apuros. A cura para a STBO foi desenvolvida, mas o único lote existente foi roubado e agora está trancado nos cofres de um laboratório farmacêutico. Para recuperá-lo, eles precisam de mãos ágeis e nervos de aço, e recorrem a Alex, um jovem mágico das cartas e filho de um antigo parceiro recém-falecido. Alex, interpretado por um Denis Lavant elétrico e acrobático, aceita o trabalho, movido tanto pela lealdade ao pai quanto por uma necessidade visceral de movimento e propósito. O plano é um clássico do cinema de assalto, mas Léos Carax usa essa estrutura como um pretexto para uma exploração muito mais profunda das dores e euforias da juventude.
A chegada de Alex ao esconderijo do grupo perturba a ordem estabelecida, principalmente quando ele se depara com Anna, a jovem companheira de Marc, vivida por uma Juliette Binoche em início de carreira, mas já com uma presença magnética. O que se desenrola não é um triângulo amoroso convencional, mas uma teia de olhares furtivos, confissões sussurradas e uma atração mútua alimentada pela melancolia compartilhada. Alex, em sua busca por uma conexão pura que o mundo parece negar, encontra em Anna um reflexo de suas próprias inquietações. A narrativa se desvia do planejamento do roubo para se concentrar nesses momentos de suspensão, como na antológica cena em que Alex corre desenfreadamente pela rua ao som de “Modern Love” de David Bowie, uma explosão de energia cinética que encapsula toda a angústia e o desejo de libertação de sua geração.
Carax constrói ‘Sangue Ruim’ com uma paleta visual marcante, dominada por cores primárias que saltam da tela, e uma gramática cinematográfica que bebe tanto da Nouvelle Vague de Godard quanto da comédia física do cinema mudo. A própria doença, STBO, funciona menos como um elemento de ficção científica e mais como a materialização de um conceito: a patologia da desconexão emocional. Num mundo onde a intimidade se tornou um risco biológico, o ato de amar genuinamente adquire um peso existencial. O filme não se apoia em diálogos expositivos para desenvolver suas ideias; prefere a eloquência de um gesto, a coreografia de um corpo em movimento ou o silêncio pesado entre duas pessoas num quarto.
Ao final, o assalto serve como o clímax inevitável para as tensões acumuladas, mas o verdadeiro interesse de ‘Sangue Ruim’ reside em sua pulsação poética e em sua capacidade de capturar o sentimento de estar vivo, apaixonado e deslocado num tempo que parece ter perdido a capacidade de sentir. É uma obra que se move com a velocidade de um trem-bala e a delicadeza de um truque de cartas, um febril poema visual sobre a impossibilidade e a urgência do amor numa era de frieza calculada. Uma peça fundamental do cinema francês dos anos 80 que solidificou Léos Carax como uma de suas vozes mais singulares e audaciosas.









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