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Filme: “Cenas de um Casamento” (1973), Ingmar Bergman

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Em Cenas de um Casamento, Ingmar Bergman nos apresenta a Johan e Marianne, um casal que, para uma revista, personifica a estabilidade e o sucesso. Ele é professor, ela é advogada de família. Juntos há dez anos, com duas filhas, eles constroem uma narrativa de felicidade funcional, articulada com a segurança intelectual de quem acredita ter decifrado o código da vida a dois. O filme começa justamente com a construção dessa fachada, uma entrevista onde a complacência e a confiança mútua são exibidas como troféus. Contudo, sob a superfície polida, a câmera de Bergman, operada pela genialidade de Sven Nykvist, já detecta as microfissuras, os olhares que se desviam, os sorrisos que não alcançam os olhos. A obra, originalmente uma minissérie para a TV sueca, não perde tempo com floreios e avança para o momento catalisador: em uma noite aparentemente comum, Johan anuncia, com uma calma assustadora, que está apaixonado por outra mulher e que partirá no dia seguinte.

A partir dessa confissão, a arquitetura da união supostamente exemplar é metodicamente desmontada. O que se segue não é um melodrama sobre traição, mas uma dissecação quase clínica das dinâmicas de poder, dependência emocional e da brutal honestidade que só emerge quando não há mais nada a perder. Bergman acompanha Johan e Marianne ao longo de anos, através de encontros que oscilam entre a agressividade violenta e uma ternura residual desconcertante. Eles discutem sobre dinheiro, sobre os filhos, sobre sexo e, principalmente, sobre a pessoa que se tornaram um para o outro. É nesse processo que eles se despem das convenções sociais que os aprisionavam. Eles vivem, inicialmente, o que a filosofia existencialista poderia chamar de má-fé: uma autoilusão conveniente, onde os papéis de ‘marido’ e ‘esposa’ se sobrepõem a qualquer verdade individual, até que a estrutura colapsa e os força a encarar a própria liberdade e a angústia que ela acarreta.

A força de Cenas de um Casamento reside na sua recusa em entregar ao espectador um veredito moral. A câmera de Bergman permanece focada nos rostos de Liv Ullmann e Erland Josephson, cujas atuações atingem um nível de vulnerabilidade e cumplicidade raramente visto no cinema. Cada cena é um estudo aprofundado sobre a complexidade da comunicação humana, sobre como as palavras podem ser usadas como armas, bálsamos ou simplesmente como ruído para preencher o vazio. O filme documenta a dolorosa jornada de duas pessoas que precisam se separar para, talvez, finalmente se enxergarem com clareza, livres das expectativas do casamento. É um exame implacável da intimidade, revelando que o oposto do amor não é necessariamente o ódio, mas uma indiferença que, para Johan e Marianne, parece ser o único estado verdadeiramente inalcançável.

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Em Cenas de um Casamento, Ingmar Bergman nos apresenta a Johan e Marianne, um casal que, para uma revista, personifica a estabilidade e o sucesso. Ele é professor, ela é advogada de família. Juntos há dez anos, com duas filhas, eles constroem uma narrativa de felicidade funcional, articulada com a segurança intelectual de quem acredita ter decifrado o código da vida a dois. O filme começa justamente com a construção dessa fachada, uma entrevista onde a complacência e a confiança mútua são exibidas como troféus. Contudo, sob a superfície polida, a câmera de Bergman, operada pela genialidade de Sven Nykvist, já detecta as microfissuras, os olhares que se desviam, os sorrisos que não alcançam os olhos. A obra, originalmente uma minissérie para a TV sueca, não perde tempo com floreios e avança para o momento catalisador: em uma noite aparentemente comum, Johan anuncia, com uma calma assustadora, que está apaixonado por outra mulher e que partirá no dia seguinte.

A partir dessa confissão, a arquitetura da união supostamente exemplar é metodicamente desmontada. O que se segue não é um melodrama sobre traição, mas uma dissecação quase clínica das dinâmicas de poder, dependência emocional e da brutal honestidade que só emerge quando não há mais nada a perder. Bergman acompanha Johan e Marianne ao longo de anos, através de encontros que oscilam entre a agressividade violenta e uma ternura residual desconcertante. Eles discutem sobre dinheiro, sobre os filhos, sobre sexo e, principalmente, sobre a pessoa que se tornaram um para o outro. É nesse processo que eles se despem das convenções sociais que os aprisionavam. Eles vivem, inicialmente, o que a filosofia existencialista poderia chamar de má-fé: uma autoilusão conveniente, onde os papéis de ‘marido’ e ‘esposa’ se sobrepõem a qualquer verdade individual, até que a estrutura colapsa e os força a encarar a própria liberdade e a angústia que ela acarreta.

A força de Cenas de um Casamento reside na sua recusa em entregar ao espectador um veredito moral. A câmera de Bergman permanece focada nos rostos de Liv Ullmann e Erland Josephson, cujas atuações atingem um nível de vulnerabilidade e cumplicidade raramente visto no cinema. Cada cena é um estudo aprofundado sobre a complexidade da comunicação humana, sobre como as palavras podem ser usadas como armas, bálsamos ou simplesmente como ruído para preencher o vazio. O filme documenta a dolorosa jornada de duas pessoas que precisam se separar para, talvez, finalmente se enxergarem com clareza, livres das expectativas do casamento. É um exame implacável da intimidade, revelando que o oposto do amor não é necessariamente o ódio, mas uma indiferença que, para Johan e Marianne, parece ser o único estado verdadeiramente inalcançável.

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