Um caminhão de reparos percorre a fronteira desolada entre as duas Alemanhas, um território de paisagens silenciosas e cidades que parecem esquecidas pelo progresso. Ao volante está Bruno Winter, um técnico itinerante cuja vida se resume a consertar projetores de cinema. Sua rotina solitária é interrompida quando Robert Lander, um linguista fugindo de uma crise pessoal, mergulha com seu carro num rio. Bruno oferece uma carona, e assim começa uma das jornadas mais singulares do cinema alemão. Em ‘No Decurso do Tempo’, de Wim Wenders, o que se desenrola não é uma história de amizade convencional, mas um companheirismo forjado em longos silêncios, conversas fragmentadas e a mútua condição de deslocamento.
A missão de Bruno, de projetor em projetor, é o fio condutor que os leva através de uma Alemanha pós-guerra ainda a lidar com a sua identidade, marcada pela crescente influência da cultura americana e pelo declínio das salas de cinema locais, os últimos bastiões de uma cultura que se esvai. O filme, uma peça central do Novo Cinema Alemão, documenta esta transição com um olhar melancólico, mas sem sentimentalismo. A relação entre os dois homens, interpretados por Rüdiger Vogler e Hanns Zischler, evolui organicamente, sem eventos dramáticos forçados. Eles são figuras em trânsito, não apenas geograficamente, mas existencialmente, atravessando um país e as suas próprias incertezas.
Filmado num preto e branco granulado e luminoso por Robby Müller, o longa de quase três horas eleva o gênero do road movie a um estado de meditação em movimento. Aqui, o percurso importa mais do que qualquer destino, e a narrativa abdica de uma estrutura convencional para se focar nas texturas do tempo e do espaço. Wenders parece interessado em explorar uma espécie de eterno retorno nietzschiano secularizado, onde a repetição dos dias e das estradas não é um fardo, mas a própria substância da existência. A identidade dos personagens define-se menos por quem são e mais pelo ato contínuo de se deslocarem, de interagirem com um mundo que parece estar a desaparecer diante dos seus olhos.
‘No Decurso do Tempo’ permanece como uma obra fundamental sobre a comunicação, ou a sua ausência, e sobre a procura de um lugar num mundo em constante fluxo. É um registo de um tempo específico, mas a sua abordagem à solidão masculina, à amizade e à paisagem como personagem confere-lhe uma qualidade perene. A sua cadência deliberada e a sua recusa em fornecer resoluções fáceis podem não ser para todos, mas para quem se sintoniza com o seu ritmo, a experiência é a de observar o cinema a encontrar uma forma pura e poética de capturar a própria passagem da vida.









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