No crepúsculo da Era de Ouro de Hollywood, em 1969, a carreira de Rick Dalton, um outrora proeminente astro de séries de faroeste na televisão interpretado por Leonardo DiCaprio, parece seguir a mesma trajetória do sol poente da Califórnia. A ansiedade corrói sua confiança enquanto ele busca papéis que o mantenham relevante em uma indústria que o esquece rapidamente. Ao seu lado, onipresente e estoico, está Cliff Booth, seu dublê e faz-tudo, um veterano de guerra vivido por Brad Pitt, cuja lealdade é tão sólida quanto seu passado é nebuloso. Juntos, eles navegam por uma Los Angeles em plena transformação, onde a contracultura começa a borbulhar sob o glamour da superfície, e a casa ao lado da de Rick acaba de ser alugada por um casal que representa tudo o que há de novo e promissor: o diretor Roman Polanski e a atriz Sharon Tate.
Em uma narrativa paralela, que flui com uma leveza quase etérea, acompanhamos o dia a dia de Sharon Tate, encarnada por Margot Robbie. Ela não é apenas uma estrela em ascensão; é a personificação luminosa de uma esperança, o epicentro de uma nova Hollywood, otimista e desimpedida. Quentin Tarantino a retrata menos através de diálogos expositivos e mais por meio de momentos de pura existência: dançando em festas na Mansão Playboy, dirigindo com os cabelos ao vento pela cidade, ou sentindo a alegria genuína de se ver na tela grande em um cinema local, celebrada por uma plateia anônima. A rotina dela contrasta diretamente com a de Rick, criando um retrato de dois mundos que coexistem, mas que parecem destinados a nunca se tocar. Um representa o passado glorioso e inseguro; o outro, um futuro radiante e aparentemente infinito.
Enquanto Rick lida com suas inseguranças profissionais em sets de filmagem e Sharon celebra a vida, uma presença dissonante se infiltra nas bordas ensolaradas do sonho californiano: os jovens seguidores de Charles Manson, observados principalmente pelos olhos de Cliff em um rancho abandonado que já foi palco de faroestes. Eles representam a fratura exposta no idealismo hippie, a ameaça que a história já nos contou estar à espreita. É aqui que o diretor executa seu movimento mais característico, um revisionismo fabular que questiona a inevitabilidade do real. A obra opera sobre a ideia de contingência, explorando como um pequeno desvio no percurso, um acaso motivado por uma explosão de fúria etílica, pode redefinir um destino que parecia selado em uma das noites mais sombrias da cultura pop americana.
O clímax é uma colisão violenta e catártica onde a ficção se impõe sobre o fato, transformando uma noite de tragédia iminente em um conto de fadas brutalmente divertido e profundamente afetuoso. Não se trata de uma simples alteração histórica, mas de um ato de preservação através da sétima arte. Ao reescrever o passado, o filme oferece uma espécie de redenção melancólica, não para as figuras individuais, mas para a própria memória de uma era. O portão que se abre no final não conduz apenas à casa de Sharon Tate, mas a uma utopia onde o cinema, em sua forma mais pura e apaixonada, tem o poder de proteger seus mitos e a inocência que um dia foi irremediavelmente perdida. É a carta de amor definitiva de Tarantino a um tempo, um lugar e, acima de tudo, ao poder que as histórias contadas na tela possuem.









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