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Filme: “Poesia” (2010), Lee Chang-dong

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Numa pacata cidade suburbana da Coreia do Sul, Mija, interpretada pela lendária Yoon Jeong-hee em seu retorno triunfal às telas, navega a vida com uma graça excêntrica e um gosto peculiar por chapéus floridos. Ela divide seus dias entre trabalhos ocasionais como cuidadora e a responsabilidade de criar seu neto, um adolescente taciturno e indiferente. Duas revelações quase simultâneas, no entanto, reconfiguram seu mundo: um diagnóstico de Alzheimer em estágio inicial e a notícia devastadora de que seu neto é um dos autores de um crime hediondo que levou uma colega de classe ao suicídio.

Impulsionada por um desejo súbito e inexplicável de capturar a beleza, Mija se matricula em um curso de escrita poética. O desafio, proposto por seu instrutor, é simples na superfície, mas profundo em sua exigência: para escrever um único poema, é preciso primeiro aprender a ver de verdade. Essa nova lente a força a encarar não as maçãs ou as flores que busca, mas a brutalidade silenciosa que se instalou em sua própria casa. Enquanto luta para encontrar as palavras certas para descrever a beleza de um damasco, ela é arrastada para reuniões com os pais dos outros agressores, um grupo de homens pragmáticos que calculam o preço do silêncio e da impunidade. A tarefa de encontrar a palavra perfeita para uma estrofe colide diretamente com a dificuldade de encontrar uma postura moral diante do inexplicável.

O cineasta Lee Chang-dong, com sua direção precisa e observacional, constrói uma narrativa que se afasta do suspense ou do melodrama judicial. O foco é a jornada fenomenológica de Mija. A perda gradual da memória, decorrente do Alzheimer, funciona em um nível mais complexo do que um mero dispositivo de enredo; é a dissolução da linguagem, a luta para nomear as coisas e os sentimentos, que corre em paralelo à sua busca artística por expressão. Neste filme, a criação poética se aproxima do conceito heideggeriano de aletheia, o desvelamento da verdade. Mija percebe que para compor seu poema final, ela não pode apenas descrever a beleza; ela precisa assimilar e dar forma à dor do outro, articulando a verdade que todos os outros personagens se esforçam para enterrar sob o peso do pragmatismo e da vergonha. É um estudo profundo sobre empatia, a responsabilidade da arte e a possibilidade de encontrar uma forma de beleza mesmo quando se está olhando para o abismo.

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Numa pacata cidade suburbana da Coreia do Sul, Mija, interpretada pela lendária Yoon Jeong-hee em seu retorno triunfal às telas, navega a vida com uma graça excêntrica e um gosto peculiar por chapéus floridos. Ela divide seus dias entre trabalhos ocasionais como cuidadora e a responsabilidade de criar seu neto, um adolescente taciturno e indiferente. Duas revelações quase simultâneas, no entanto, reconfiguram seu mundo: um diagnóstico de Alzheimer em estágio inicial e a notícia devastadora de que seu neto é um dos autores de um crime hediondo que levou uma colega de classe ao suicídio.

Impulsionada por um desejo súbito e inexplicável de capturar a beleza, Mija se matricula em um curso de escrita poética. O desafio, proposto por seu instrutor, é simples na superfície, mas profundo em sua exigência: para escrever um único poema, é preciso primeiro aprender a ver de verdade. Essa nova lente a força a encarar não as maçãs ou as flores que busca, mas a brutalidade silenciosa que se instalou em sua própria casa. Enquanto luta para encontrar as palavras certas para descrever a beleza de um damasco, ela é arrastada para reuniões com os pais dos outros agressores, um grupo de homens pragmáticos que calculam o preço do silêncio e da impunidade. A tarefa de encontrar a palavra perfeita para uma estrofe colide diretamente com a dificuldade de encontrar uma postura moral diante do inexplicável.

O cineasta Lee Chang-dong, com sua direção precisa e observacional, constrói uma narrativa que se afasta do suspense ou do melodrama judicial. O foco é a jornada fenomenológica de Mija. A perda gradual da memória, decorrente do Alzheimer, funciona em um nível mais complexo do que um mero dispositivo de enredo; é a dissolução da linguagem, a luta para nomear as coisas e os sentimentos, que corre em paralelo à sua busca artística por expressão. Neste filme, a criação poética se aproxima do conceito heideggeriano de aletheia, o desvelamento da verdade. Mija percebe que para compor seu poema final, ela não pode apenas descrever a beleza; ela precisa assimilar e dar forma à dor do outro, articulando a verdade que todos os outros personagens se esforçam para enterrar sob o peso do pragmatismo e da vergonha. É um estudo profundo sobre empatia, a responsabilidade da arte e a possibilidade de encontrar uma forma de beleza mesmo quando se está olhando para o abismo.

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