Ventura, um homem enrugado com a dignidade esculpida no rosto, vagueia pelos corredores sombrios e pelas ruínas do que foi o conjunto habitacional de Quinta da Esperança. Não se trata, porém, de um relato sobre demolição urbana, mas de uma jornada fantasmagórica pela memória coletiva e pela desolação individual. O filme de Pedro Costa, “Colossal Youth”, acompanha Ventura em sua busca por filhos, uma prole dispersa e talvez imaginária, pelas entranhas de um Portugal marginalizado.
A câmera de Costa, lenta e contemplativa, transforma a paisagem decadente em um palco onde o tempo parece estagnar. Os rostos dos moradores, marcados pela pobreza e pelo abandono, ganham uma beleza crua e inquietante. Ventura, um imigrante cabo-verdiano, personifica a figura do pai errante, carregando o peso de um passado incerto e a impossibilidade de um futuro promissor. Ele recita cartas de amor e de desespero, poemas sussurrados em meio ao concreto rachado, como um Orfeu moderno perdido em um inferno particular.
A narrativa fragmentada e elíptica desafia as convenções do cinema tradicional. Não há trama linear, nem explicações fáceis. A experiência do filme reside na imersão em um universo sensorial onde a luz e a sombra, o som e o silêncio, a palavra e o gesto se unem para criar uma atmosfera de melancolia e esperança silenciosa. “Colossal Youth” é uma reflexão sobre a incomunicabilidade, a fragilidade dos laços familiares e a persistência da memória em um mundo em ruínas. Ecoa o conceito de “rizoma” de Deleuze e Guattari, onde a conexão não se dá por hierarquia, mas por múltiplas entradas e saídas, um emaranhado de histórias que se cruzam e se dissolvem na vastidão da experiência humana. Um filme que permanece conosco, muito depois de os créditos rolarem.









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