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Filme: “Conto dos Crisântemos Tardios” (1939), Kenji Mizoguchi

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No universo rigidamente codificado do teatro kabuki da era Meiji, a reputação precede o talento. É o que descobre Kikunosuke, um ator medíocre aplaudido nos palcos de Tóquio apenas por ser o filho adotivo de um mestre reverenciado. Sua performance é desprovida de alma, mas o círculo social que o cerca o mantém numa bolha de elogios fáceis. Apenas uma pessoa ousa perfurar essa ilusão: Otoku, a ama de leite de seu irmão mais novo. Com uma honestidade brutal e um cuidado genuíno, ela é a primeira a confrontá-lo com a verdade de sua arte. Fascinado por sua percepção, Kikunosuke se aproxima dela, desencadeando um escândalo que abala as fundações de sua família e o força a uma escolha: o conforto de seu status ou o incerto caminho para a excelência artística ao lado da mulher que o compreende.

A análise de Conto dos Crisântemos Tardios, um dos trabalhos seminais de Kenji Mizoguchi, se aprofunda na dinâmica entre sacrifício e ambição. Quando o casal deixa a metrópole para trás, a narrativa se transforma na crônica de uma devoção absoluta, a de Otoku, que subordina sua própria existência ao aprimoramento do homem que ama. Mizoguchi filma essa jornada com uma distância calculada, seus célebres planos-sequência transformam o espectador em um observador paciente, quase um fantasma a testemunhar a passagem do tempo e o peso das decisões. A câmera não julga, apenas registra a composição meticulosa de cada cena, onde a profundidade de campo revela as pressões sociais e as hierarquias que enquadram a vida dos personagens. O formalismo do cinema de Mizoguchi ecoa o formalismo do próprio kabuki, criando uma peça onde a forma é inseparável do conteúdo.

Mais do que um drama romântico, o filme de 1939 explora a natureza da criação artística e o seu custo humano, um tema recorrente no cinema japonês. A busca de Kikunosuke pela perfeição no palco é indissociável da abnegação silenciosa de Otoku nos bastidores. A obra investiga uma sensibilidade que pode ser associada ao conceito de mono no aware, a percepção da beleza inerente à transitoriedade das coisas. O sucesso, quando finalmente chega, é efêmero e carrega consigo o sabor agridoce das perdas irrecuperáveis. Ao final, o que permanece não é o som dos aplausos, mas o eco de uma vida dedicada a outra, uma análise precisa sobre como a arte, por vezes, é forjada não apenas pelo fogo do talento, mas também pelo sacrifício invisível que a alimenta.

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No universo rigidamente codificado do teatro kabuki da era Meiji, a reputação precede o talento. É o que descobre Kikunosuke, um ator medíocre aplaudido nos palcos de Tóquio apenas por ser o filho adotivo de um mestre reverenciado. Sua performance é desprovida de alma, mas o círculo social que o cerca o mantém numa bolha de elogios fáceis. Apenas uma pessoa ousa perfurar essa ilusão: Otoku, a ama de leite de seu irmão mais novo. Com uma honestidade brutal e um cuidado genuíno, ela é a primeira a confrontá-lo com a verdade de sua arte. Fascinado por sua percepção, Kikunosuke se aproxima dela, desencadeando um escândalo que abala as fundações de sua família e o força a uma escolha: o conforto de seu status ou o incerto caminho para a excelência artística ao lado da mulher que o compreende.

A análise de Conto dos Crisântemos Tardios, um dos trabalhos seminais de Kenji Mizoguchi, se aprofunda na dinâmica entre sacrifício e ambição. Quando o casal deixa a metrópole para trás, a narrativa se transforma na crônica de uma devoção absoluta, a de Otoku, que subordina sua própria existência ao aprimoramento do homem que ama. Mizoguchi filma essa jornada com uma distância calculada, seus célebres planos-sequência transformam o espectador em um observador paciente, quase um fantasma a testemunhar a passagem do tempo e o peso das decisões. A câmera não julga, apenas registra a composição meticulosa de cada cena, onde a profundidade de campo revela as pressões sociais e as hierarquias que enquadram a vida dos personagens. O formalismo do cinema de Mizoguchi ecoa o formalismo do próprio kabuki, criando uma peça onde a forma é inseparável do conteúdo.

Mais do que um drama romântico, o filme de 1939 explora a natureza da criação artística e o seu custo humano, um tema recorrente no cinema japonês. A busca de Kikunosuke pela perfeição no palco é indissociável da abnegação silenciosa de Otoku nos bastidores. A obra investiga uma sensibilidade que pode ser associada ao conceito de mono no aware, a percepção da beleza inerente à transitoriedade das coisas. O sucesso, quando finalmente chega, é efêmero e carrega consigo o sabor agridoce das perdas irrecuperáveis. Ao final, o que permanece não é o som dos aplausos, mas o eco de uma vida dedicada a outra, uma análise precisa sobre como a arte, por vezes, é forjada não apenas pelo fogo do talento, mas também pelo sacrifício invisível que a alimenta.

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