Quatro homens, desgarrados de vidas anteriores por crimes e azares distintos, encontram-se presos num purgatório terrestre. Este lugar tem um nome, Porvenir, uma aldeia miserável na América Latina encharcada de chuva e suor, onde o futuro é uma miragem e o passado uma sentença. Um mafioso em fuga, um banqueiro parisiense desonrado, um terrorista e um assassino partilham o mesmo destino anónimo, reduzidos a uma existência de subsistência, aguardando uma oportunidade que talvez nunca chegue. A sua prisão não tem grades, mas é absoluta, selada pela falta de dinheiro e de documentos.
A oportunidade surge da forma mais explosiva possível. Um poço de petróleo distante explode em chamas, e a única maneira de extinguir o fogo é com uma detonação controlada. Para isso, caixotes de dinamite antiga e instável, suando nitroglicerina, precisam de ser transportados por mais de trezentos quilómetros de selva impiedosa, estradas de terra traiçoeiras e pontes de corda apodrecidas. A companhia petrolífera oferece uma fortuna e uma nova identidade a quem conseguir realizar a tarefa suicida. Para estes quatro homens, o medo da morte iminente torna-se subitamente menos assustador do que a certeza de uma vida sem saída. Assim começa a jornada de ‘O Comboio do Medo’, a obra de William Friedkin que redefine a noção de suspense.
O que se desenrola não é uma simples narrativa de aventura, mas um estudo quase documental sobre a física da tensão e a psicologia da sobrevivência. Friedkin filma o processo com uma atenção obsessiva aos detalhes: a montagem dos camiões decrépitos, batizados de Lazaro e Sorcerer, a forma como a carga instável reage a cada solavanco, o som do metal a ranger e da madeira a estalar. A câmara não julga as personagens, apenas regista a sua luta brutal contra um ambiente que é a verdadeira força antagónica da história. A selva, a chuva, a gravidade e a química volátil da nitroglicerina são os elementos que ditam as regras deste jogo mortal.
O filme de Friedkin opera num plano de existencialismo bruto, onde a moralidade é um luxo inacessível. Os quatro homens, interpretados com uma intensidade contida por Roy Scheider, Bruno Cremer, Francisco Rabal e Amidou, não procuram redenção. A sua busca é puramente pragmática: a fuga. A sua viagem pode ser vista como uma tarefa Sísifa, um esforço monumental e absurdo contra forças avassaladoras, onde cada pequena vitória apenas adia o próximo obstáculo, potencialmente fatal. Não há diálogos expositivos sobre os seus passados ou sentimentos; a sua humanidade e desespero são comunicados através do esforço físico, do olhar cansado e da concentração absoluta necessária para não explodir.
Distanciando-se do seu material de origem, o filme francês ‘O Salário do Medo’, a versão de Friedkin cria uma identidade própria através da sua estética sombria e da sua atmosfera palpável. A banda sonora pulsante do Tangerine Dream não serve como acompanhamento musical, mas como o batimento cardíaco eletrónico do próprio filme, um drone constante que se infiltra no sistema nervoso do espectador, amplificando a sensação de perigo iminente. ‘O Comboio do Medo’ é um exercício cinematográfico sobre causa e efeito, onde cada decisão tem consequências físicas e imediatas. A chegada ao destino não representa uma libertação, mas a confirmação de que, num mundo regido pelo acaso e pela entropia, a sobrevivência é apenas um adiamento temporário do inevitável.









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