Numa Itália que parece suspensa no tempo, a propriedade rural de Inviolata é um microcosmo feudal onde dezenas de agricultores de tabaco servem, em regime de servidão, a marquesa Alfonsina de Luna. Entre eles está Lazzaro, um jovem camponês cuja bondade é tão pura e incondicional que frequentemente é confundida com ingenuidade ou estupidez. Ele trabalha incansavelmente por todos, sem nunca pedir nada em troca, movido por uma disposição natural para a ajuda mútua. A sua rotina e a de sua comunidade, isolada do resto do mundo, é abalada pela chegada de Tancredi, o filho da marquesa, um rapaz que se afeiçoa a Lazzaro e o envolve numa farsa de sequestro.
Esta bolha anacrônica é rompida de forma abrupta quando as autoridades descobrem o esquema de exploração ilegal da marquesa, revelando aos trabalhadores que o mundo exterior vive décadas à frente. Libertados, os camponeses são atirados para a periferia de uma cidade moderna, trocando uma forma de exploração por outra, agora regida pelas lógicas impessoais do capitalismo tardio. É neste novo cenário que a figura de Lazzaro, após um evento que dobra as leis da física e do tempo, reaparece. A sua essência, no entanto, permanece inalterada, um ponto fixo de decência num ambiente de oportunismo e desconfiança.
Alice Rohrwacher filma esta história com uma sensibilidade que funde o cinema neorrealista italiano com elementos de realismo mágico, criando uma fábula social sobre a natureza da bondade. Lazzaro não é um personagem psicológico no sentido tradicional; ele funciona como um elemento anacrônico, um fragmento de uma humanidade pré-transacional que testa os sistemas ao seu redor. A sua jornada da servidão rural para a precariedade urbana não é uma trajetória de evolução, mas um estudo sobre a persistência de uma qualidade humana fundamental em mundos que não sabem como processá-la ou valorizá-la.
O filme se afasta de julgamentos morais fáceis sobre os seus personagens ou sobre as estruturas sociais que retrata. Em vez disso, observa com uma clareza quase documental o que acontece quando uma inocência radical encontra a complexidade cínica da civilização. A narrativa investiga, com uma beleza austera e um toque de assombro, a possibilidade de uma santidade secular num mundo que já não reconhece o seu valor, ou talvez nunca o tenha reconhecido.









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