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Filme: “Buena Vista Social Club” (1999), Wim Wenders

O ponto de partida do documentário de Wim Wenders é um projeto de resgate musical idealizado pelo guitarrista Ry Cooder: viajar a Havana para gravar um álbum com uma geração de músicos cubanos cuja arte floresceu antes da revolução de 1959 e foi, em grande parte, confinada à ilha desde então. O filme acompanha esse…


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O ponto de partida do documentário de Wim Wenders é um projeto de resgate musical idealizado pelo guitarrista Ry Cooder: viajar a Havana para gravar um álbum com uma geração de músicos cubanos cuja arte floresceu antes da revolução de 1959 e foi, em grande parte, confinada à ilha desde então. O filme acompanha esse processo, desde a reunião de figuras como o carismático Compay Segundo, com seus 90 anos e um charuto sempre à mão, o pianista virtuoso Rubén González, que precisou reaprender a tocar após anos de inatividade, e a voz melancólica e poderosa de Ibrahim Ferrer, encontrado engraxando sapatos. A câmera de Wenders documenta as sessões de gravação nos históricos estúdios da Egrem, onde a química entre os artistas se revela instantânea e a música flui com uma naturalidade espantosa.

Mais do que um simples registro de estúdio, a obra se expande para as ruas de Havana, capturando os músicos em seu cotidiano. A cidade, com sua arquitetura em estado de suspensão e seus carros clássicos americanos, funciona não como um cenário exótico, mas como uma extensão da própria música: um organismo vivo que carrega as marcas do tempo sem perder sua pulsação. A narrativa se constrói através dos depoimentos dos próprios artistas, que contam suas histórias de vida, suas glórias passadas e o longo período de esquecimento com uma mistura de humor, resignação e uma alegria contida. Wenders adota uma postura de observador atento, permitindo que a força das personalidades e o poder sonoro do son cubano, do bolero e do danzón conduzam o filme, sem impor uma tese ou uma agenda política explícita.

A análise da obra revela uma exploração sutil sobre a natureza da memória e da arte. A música que emerge não soa como uma peça de museu; ela pulsa com uma vitalidade contemporânea, informada por décadas de silêncio e experiência acumulada. Aqui, a noção de duração de Henri Bergson parece encontrar uma tradução audiovisual: o tempo não é uma linha reta de eventos, mas um fluxo contínuo onde o passado coexiste com o presente em cada nota tocada, em cada frase cantada. O filme demonstra como a maestria artística, uma vez adquirida, permanece latente, aguardando apenas o estímulo correto para se manifestar com força total. Wenders filma estes homens e mulheres com uma objetividade que realça sua dignidade, evitando a armadilha da vitimização ou da mitificação.

O clímax da jornada se dá com os concertos em Amsterdã e, finalmente, no Carnegie Hall de Nova York, onde os músicos, muitos deles viajando para fora de Cuba pela primeira vez, são recebidos com o reconhecimento global que lhes fora negado por tanto tempo. A imagem de Ibrahim Ferrer, comovido diante da ovação, ou de Omara Portuondo, a grande dama da canção, em um dueto com Compay Segundo, sintetiza o arco do filme: a passagem da obscuridade local para a aclamação internacional. O legado do filme, no final das contas, é o próprio som que ele ajudou a difundir. É um documento sobre o poder que a arte possui de preservar a identidade e a história, operando como um canal direto para uma experiência cultural profunda, independentemente das circunstâncias que a envolvam.


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