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Filme: “O Manuscrito de Saragoça” (1965), Wojciech Has

Em plena Espanha ocupada pelas tropas napoleónicas, um jovem oficial valão, Alphonse van Worden, recebe a missão de atravessar a Sierra Morena, uma região amaldiçoada por ladrões e fantasmas. Ignorando os avisos, ele mergulha numa jornada que rapidamente desintegra as fronteiras do real. Ao encontrar uma estalagem abandonada, é seduzido por duas encantadoras princesas mouras…


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Em plena Espanha ocupada pelas tropas napoleónicas, um jovem oficial valão, Alphonse van Worden, recebe a missão de atravessar a Sierra Morena, uma região amaldiçoada por ladrões e fantasmas. Ignorando os avisos, ele mergulha numa jornada que rapidamente desintegra as fronteiras do real. Ao encontrar uma estalagem abandonada, é seduzido por duas encantadoras princesas mouras que o informam ser ele o último descendente da sua linhagem. O preço da sua companhia é a conversão ao Islão. Cada vez que cede às suas tentações, Van Worden acorda inexplicavelmente no mesmo local: sob uma forca, ao lado de dois corpos enforcados. Este ciclo de sedução, sono e despertar bizarro é apenas o ponto de partida para uma imersão em dezenas de outras histórias.

A obra de Has desdobra-se como uma intrincada arquitetura de bonecas russas narrativas. O capitão, interpretado com um carisma cético por Zbigniew Cybulski, funciona como o nosso ponto de entrada, mas a sua aventura é constantemente interrompida por personagens que encontra pelo caminho. Ciganos, cabalistas, matemáticos, inquisidores e nobres decadentes tomam a palavra para contar as suas próprias vidas, e dentro desses relatos, novos narradores surgem para iniciar outras crónicas. O filme opera numa lógica de cascata, onde uma história dá origem a outra, e outra, e outra, com contos picarescos, tramas de honra, farsas eróticas e dissertações ocultistas que se entrelaçam e se sobrepõem. A genialidade da direção de Has reside em manter a clareza dentro desta vertiginosa estrutura em caixas chinesas, guiando o espectador por uma sucessão de eventos que, embora díspares, começam a dialogar entre si, sugerindo uma conspiração ou um propósito maior por trás do aparente caos.

Mais do que um quebra-cabeças narrativo, o filme explora a própria natureza da realidade e da identidade. A jornada de Van Worden levanta uma questão fundamental, próxima do solipsismo: o mundo exterior é uma entidade independente ou uma projeção complexa da consciência que o observa? As suas certezas de homem racional e militar são postas à prova não por monstros, mas pela lógica implacável da própria narração. A fotografia a preto e branco acentua a aridez da paisagem espanhola e o carácter teatral dos interiores, criando um universo visualmente coeso onde o fantástico e o mundano coexistem sem conflito. A abordagem de Wojciech Has é cerebral, mas também dotada de uma astúcia e um humor subtil, transformando o que poderia ser um exercício intelectual pesado num divertimento filosófico.

O impacto de “O Manuscrito de Saragoça” estende-se muito para além do seu lançamento em 1965, tornando-se uma peça de culto admirada por figuras como Luis Buñuel, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola. A experiência de assistir ao filme não se encerra com os créditos finais; ela reverbera na forma como passamos a observar as histórias que nos contam e que contamos a nós mesmos. A produção não se limita a apresentar uma sucessão de eventos fantásticos, mas investiga o poder que as narrativas possuem para construir, desconstruir e, finalmente, definir a nossa própria existência. É uma celebração do ato de contar histórias como a mais fundamental das aventuras humanas.


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