Nas profundezas geladas da Finlândia, uma adolescente vive fora do tempo e da civilização. Hanna, interpretada com uma fisicalidade impressionante por Saoirse Ronan, foi criada por seu pai, o ex-agente da CIA Erik Heller, com um único propósito: tornar-se a arma perfeita. A sua educação não incluiu socialização ou cultura pop, mas sim táticas de sobrevivência, combate corpo a corpo e um enciclopédico conhecimento factual, memorizado como um programa. A floresta é o seu recreio e o seu campo de treino. Quando Hanna decide que está pronta, ela aciona um transmissor que revela a sua localização ao mundo, especificamente a Marissa Wiegler, uma oficial de alto escalão da CIA com uma determinação fria e uma ligação obsessiva ao passado de Erik. A caçada começa, projetando Hanna de sua reclusão selvagem para a cacofonia sensorial da civilização moderna, uma jornada que a levará do deserto marroquino às ruas de Berlim.
O que se desenrola é uma perseguição implacável que Joe Wright filma não como um mero thriller de espionagem, mas como uma fábula febril e desconcertante sobre o amadurecimento. A jornada de Hanna pelo mundo é também a sua primeira exposição à amizade, à música, à eletricidade e à complexidade das relações humanas, experiências que a sua formação pragmática não consegue processar. Wright troca o realismo sujo do gênero por uma estilização vibrante, onde a violência assume uma geometria brutal e as sequências de ação são coreografias letais embaladas pela pulsante e inesquecível banda sonora dos The Chemical Brothers. A sua câmara desliza e observa, transformando um terminal de contentores ou um parque de diversões abandonado em cenários quase mitológicos, palcos para confrontos que definem a busca da jovem pela verdade sobre as suas origens.
A direção de arte e a fotografia colidem o naturalismo cru da sua criação com a artificialidade dos ambientes urbanos, sublinhando o deslocamento fundamental da personagem. Hanna é uma anomalia, uma força da natureza confrontada com um mundo que ela só conhecia através de livros. Cate Blanchett constrói Marissa Wiegler não como uma simples antagonista, mas como uma figura de autoridade implacável, cuja perseguição a Hanna é tão profissional quanto pessoal. A sua determinação reflete a ameaça que a existência de Hanna representa para a ordem estabelecida por agências de inteligência que operam nas sombras, onde segredos são enterrados e pessoas são tratadas como projetos.
No fundo, Hanna explora uma forma de biopoder, o conceito foucaultiano de controlo sobre a vida e os corpos. A protagonista descobre que a sua própria biologia, a sua força e as suas aptidões, não são inteiramente suas, mas o resultado de um programa clandestino que a concebeu como um ativo. A sua luta pela sobrevivência torna-se, então, uma luta pela autonomia sobre o seu próprio ser. Ela não foge apenas de agentes, mas da narrativa que lhe foi imposta desde a concepção. O filme utiliza a gramática do cinema de ação para colocar questões sobre identidade, natureza versus criação e a possibilidade de se forjar um eu autêntico a partir de uma existência fabricada. É uma obra singular, um conto de fadas eletrónico cuja estranheza e energia cinética permanecem muito depois de os créditos rolarem.




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