Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “Quinze Milhões de Méritos” (2011), Euros Lyn

Em um futuro indeterminado, a rotina de Bing Madsen se resume a um ciclo monótono e funcional: pedalar em uma bicicleta ergométrica para gerar energia e acumular “méritos”, a moeda digital que paga por seu cubículo, sua comida processada e o entretenimento obrigatório que preenche cada segundo de sua vigília. Dirigido por Euros Lyn, o…


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Em um futuro indeterminado, a rotina de Bing Madsen se resume a um ciclo monótono e funcional: pedalar em uma bicicleta ergométrica para gerar energia e acumular “méritos”, a moeda digital que paga por seu cubículo, sua comida processada e o entretenimento obrigatório que preenche cada segundo de sua vigília. Dirigido por Euros Lyn, o episódio de Black Mirror, ‘Quinze Milhões de Méritos’, desenha uma sociedade onde a realidade é inteiramente mediada por telas interativas que impõem um fluxo constante de anúncios invasivos e programas de auditório de baixa qualidade. A única forma de escapar do trabalho braçal é o sucesso em um reality show, o ‘Hot Shot’, uma plataforma brutal que julga talentos com o mesmo apetite com que os descarta. Nesse ambiente, a autenticidade é um bem raro e valioso. Bing, interpretado com uma quietude melancólica por Daniel Kaluuya, se apaixona por essa qualidade em Abi Khan, cuja voz carrega uma pureza que contrasta com a artificialidade ao redor. Convencido de que seu talento genuíno pode romper a barreira do sistema, ele gasta sua vultosa herança de quinze milhões de méritos para comprar um passe dourado para que ela se apresente no palco do ‘Hot Shot’.

O que se segue é uma dissecação precisa da cultura da celebridade e da mercantilização da arte. A performance de Abi é recebida com indiferença pelos jurados, que, em vez de valorizarem sua habilidade vocal, a direcionam para a indústria pornográfica, uma carreira mais lucrativa e alinhada aos desejos do público massificado. A esperança de Bing se estilhaça, transformando-se em uma fúria silenciosa e calculada. Ele retorna à rotina de pedalar, mas agora com um propósito: acumular novamente a fortuna necessária para comprar outra chance no palco, não para cantar, mas para expressar seu descontentamento. O roteiro de Charlie Brooker e Konnie Huq articula uma crítica feroz não apenas à exploração, mas à maneira como o próprio sistema absorve e neutraliza qualquer forma de contestação.

Quando Bing finalmente invade o palco, de posse de um fragmento afiado apontado para o próprio pescoço, ele desfere um monólogo apaixonado e visceral contra a vacuidade daquela existência, a desumanização e a passividade de seus contemporâneos. A reação do sistema, no entanto, é o ponto mais agudo da análise. Seu ato de rebeldia não abala as estruturas; pelo contrário, é aclamado como uma performance espetacular, uma nova forma de entretenimento cru e “real”. Sua raiva é embalada e vendida. Oferecem a ele um programa semanal para que continue com suas críticas, agora devidamente enquadradas e monetizadas dentro do mesmo ecossistema que ele pretendia denunciar. A narrativa expõe a lógica implacável da sociedade do espetáculo, de Guy Debord, onde a própria dissidência é transformada em mais um produto a ser consumido. O desfecho mostra Bing em um apartamento maior, com uma vista simulada de uma floresta, um conforto que apenas sublinha a natureza de sua nova prisão, agora mais espaçosa, mas igualmente controlada. Sua indignação tornou-se um item na grade de programação.


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