Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “Dyketactics” (1973), Barbara Hammer

Em 1974, Barbara Hammer ligou sua câmera Bolex de 16mm e filmou o que se tornaria um marco do cinema de vanguarda. Dyketactics se desdobra em uma sucessão vertiginosa de 111 imagens em pouco mais de quatro minutos, uma colagem tátil e solar de corpos femininos em comunhão. Entre campos verdes e a textura granulada…


Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Em 1974, Barbara Hammer ligou sua câmera Bolex de 16mm e filmou o que se tornaria um marco do cinema de vanguarda. Dyketactics se desdobra em uma sucessão vertiginosa de 111 imagens em pouco mais de quatro minutos, uma colagem tátil e solar de corpos femininos em comunhão. Entre campos verdes e a textura granulada do filme, mulheres se tocam, riem e existem em um espaço de pura afirmação sensual. Não há uma narrativa convencional, apenas um fluxo constante de momentos: um morango sendo colocado em uma vagina, mãos percorrendo a pele, closes de seios justapostos a imagens da natureza. Hammer não estava interessada em contar uma história, mas em criar uma experiência visual e sensorial, uma gramática imagética para o desejo lésbico que, até então, existia principalmente fora do enquadramento cinematográfico.

A estrutura do filme é tão significativa quanto seu conteúdo. A edição rápida e as superimposições criam uma sensação de sonho e memória, onde corpos e paisagens se fundem. A câmera, operada pela própria Hammer, é íntima e participante, nunca voyeurística. Ela filma a pele com a mesma curiosidade com que filma a casca de uma árvore ou a textura de uma folha, sugerindo uma conexão orgânica entre o corpo feminino e o mundo natural. O curta funciona como um antídoto visual à representação historicamente patologizada ou invisibilizada da sexualidade lésbica, propondo em seu lugar um léxico de alegria, autoexploração e prazer compartilhado. É um cinema feito a partir de um ponto de vista específico, para uma audiência que raramente se via representada com tal candura e celebração.

O trabalho de Hammer aqui pode ser aproximado da noção deleuziana de corpo sem órgãos, uma superfície de intensidades que recusa a organização hierárquica e funcional para se abrir a novas conexões. Os corpos em Dyketactics não são definidos por seus rostos ou identidades sociais; são paisagens de sensação, territórios de prazer onde a boca, a mão e a pele se tornam agentes de uma nova forma de conhecimento. Essa abordagem desmantela a objetificação ao apresentar o corpo como um local de experiência vivida, não um objeto para ser consumido pelo olhar. A obra se estabelece, portanto, não como um manifesto político explícito, mas como um ato poético de criação.

Ao final, o que permanece de Dyketactics é a sua energia contagiante e a sua simplicidade radical. O filme documenta um momento de utopia íntima e comunitária, articulando uma linguagem cinematográfica que influenciaria gerações de cineastas queer e experimentais. Mais do que registrar um ato, Hammer coreografou uma sensação, construindo um documento audiovisual sobre a beleza encontrada na liberdade corporal e na invenção de um olhar próprio. É uma peça fundamental para compreender a evolução do cinema independente e a construção de novas formas de representação no século XX.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading