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Filme: “Gaviões e Passarinhos” (1966), Pier Paolo Pasolini

Numa estrada poeirenta nos arredores de Roma, um pai e um filho, Totò e Ninetto Davoli, caminham sem destino aparente, figuras que parecem saídas tanto de uma comédia dell’arte quanto do cotidiano neorrealista. A sua jornada errante, uma metáfora para o percurso da própria humanidade proletária, é abruptamente interrompida por uma criatura singular: um corvo…


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Numa estrada poeirenta nos arredores de Roma, um pai e um filho, Totò e Ninetto Davoli, caminham sem destino aparente, figuras que parecem saídas tanto de uma comédia dell’arte quanto do cotidiano neorrealista. A sua jornada errante, uma metáfora para o percurso da própria humanidade proletária, é abruptamente interrompida por uma criatura singular: um corvo falante. Este não é um pássaro qualquer, mas um intelectual de esquerda, um marxista convicto que decide acompanhá-los, oferecendo um fluxo contínuo de comentários filosóficos e análises históricas sobre o mundo que atravessam. Para ilustrar a crise da ideologia e a complexidade da história, o corvo narra uma parábola ambientada na Idade Média, com os mesmos Totò e Ninetto como protagonistas.

Nesta fábula inserida na narrativa, os dois se tornam os frades franciscanos Ciccillo e Ninetto, encarregados por São Francisco de uma missão aparentemente simples: pregar o evangelho do amor universal aos pássaros. Especificamente, aos gaviões e aos passarinhos. Com uma dedicação comovente e absurda, eles aprendem a linguagem das aves e conseguem transmitir a sua mensagem de paz. O sucesso, contudo, é fugaz. Logo após a evangelização, os gaviões, seguindo sua natureza predatória, voltam a caçar e devorar os passarinhos. A lição é amarga: uma ideologia de fraternidade universal se mostra impotente perante as leis naturais e as estruturas de poder inerentes, a luta de classes traduzida para o reino animal.

De volta à estrada do presente, o filme de Pier Paolo Pasolini articula sua crítica mais afiada. O corvo, com sua retórica incessante, representa a superestrutura teórica, a ideologia que tenta guiar as massas, enquanto Totò e Ninetto são a base material, o povo com suas necessidades primárias, sua fome e seu ceticismo pragmático. A obra se move com uma fluidez desconcertante entre a comédia picaresca, o ensaio político e a reflexão sobre a fé, utilizando o ícone cômico Totò para desmontar a solenidade do discurso intelectual. O desfecho, ao mesmo tempo hilário e implacável, mostra pai e filho, exaustos da verborragia e movidos pela fome, cozinhando e comendo o corvo. A teoria, por mais eloquente que seja, é literalmente consumida pela necessidade do estômago, num gesto que encapsula o questionamento de Pasolini sobre o divórcio entre os intelectuais e o povo que eles pretendem iluminar.


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