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Filme: “Tango” (1981), Zbigniew Rybczynski

Em um único cômodo, a câmera permanece fixa. A ação começa de forma simples: um garoto entra pela janela, pega uma bola que deixou sobre um armário e sai pelo mesmo lugar. O ciclo se repete. Logo em seguida, uma mulher entra pela porta, deixa uma sacola de compras, sai. Um homem surge, troca de…


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Em um único cômodo, a câmera permanece fixa. A ação começa de forma simples: um garoto entra pela janela, pega uma bola que deixou sobre um armário e sai pelo mesmo lugar. O ciclo se repete. Logo em seguida, uma mulher entra pela porta, deixa uma sacola de compras, sai. Um homem surge, troca de roupa apressadamente. Aos poucos, o espaço é preenchido por uma sucessão de personagens, cada um executando uma pequena e mundana tarefa em um loop contínuo. Um ladrão rouba um pacote, um operário come uma sopa, uma mãe amamenta um bebê, um casal se abraça. A proeza técnica de Zbigniew Rybczynski consiste em sobrepor dezenas dessas trajetórias humanas que, embora se cruzem fisicamente no quadro, nunca interagem ou colidem. São presenças fantasmagóricas umas para as outras, compartilhando o mesmo tempo e o mesmo espaço sem qualquer reconhecimento mútuo.

O que se desdobra é uma coreografia precisa da alienação. A obra, vencedora do Oscar de melhor curta de animação em 1983, é menos uma narrativa e mais uma tese visual sobre a saturação da vida moderna e a compartimentalização da existência. Cada figura, trancada em sua própria rotina, contribui para um caos que é, paradoxalmente, perfeitamente orquestrado. A repetição incessante das ações evoca uma espécie de eterno retorno do banal, onde o ciclo da vida não é feito de grandes eventos, mas de gestos triviais e mecânicos. O título, ‘Tango’, funciona de maneira irônica: em vez da paixão e da conexão de uma dança a dois, o que vemos é uma dança da indiferença coletiva, um balé complexo de solidões simultâneas.

O filme constrói uma tensão crescente não através do conflito, mas da acumulação. O espectador observa o quarto se tornar um organismo superpovoado e frenético, um microcosmo da vida urbana onde a proximidade física intensifica o isolamento psicológico. Rybczynski, através de um processo de animação e filmagem meticuloso que levou meses de trabalho com máscaras e múltiplas exposições no filme, materializa a experiência de estar sozinho no meio da multidão. No final, quando as figuras desaparecem uma a uma, na ordem inversa de sua aparição, o quarto volta ao seu silêncio inicial. O vazio deixado para trás é tão significativo quanto a cacofonia que o precedeu, sugerindo a natureza transitória e, por fim, solitária, de cada um desses ciclos de vida que por um breve momento ocuparam o mesmo palco.


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