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Filme: “Coração Satânico” (1987), Alan Parker

Nova Iorque, 1955. O investigador particular Harry Angel, um homem com o charme amarrotado de quem já viu de tudo, aceita um caso que parece rotineiro. A tarefa, proposta por um cliente impecavelmente vestido e de presença gélida chamado Louis Cyphre, é encontrar um cantor popular desaparecido após a guerra, Johnny Favorite. O que começa…


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Nova Iorque, 1955. O investigador particular Harry Angel, um homem com o charme amarrotado de quem já viu de tudo, aceita um caso que parece rotineiro. A tarefa, proposta por um cliente impecavelmente vestido e de presença gélida chamado Louis Cyphre, é encontrar um cantor popular desaparecido após a guerra, Johnny Favorite. O que começa como uma simples busca por uma pessoa em dívida se transforma em uma descida para o coração pulsante e úmido de Nova Orleães, um lugar onde o ar é pesado com segredos e superstição. A cada passo que Angel dá, seguindo as pistas deixadas por Favorite, um rastro de mortes brutais se forma em seu encalço, tornando a investigação um emaranhado de ocultismo, rituais de vodu e memórias enterradas.

Alan Parker constrói um filme de atmosfera palpável, onde o calor e a decadência do sul dos Estados Unidos são mais do que um cenário, funcionando como uma força opressiva que sufoca o protagonista. A estrutura do clássico filme noir, com seu detetive cínico e a femme fatale, aqui representada pela enigmática Epiphany Proudfoot, é metodicamente subvertida. A busca por Johnny Favorite transforma-se em uma perversa inversão do imperativo délfico “conhece-te a ti mesmo”. Angel não está apenas à procura de um homem, mas é forçado a confrontar fragmentos de um passado que não reconhece, em uma jornada onde a identidade se revela uma construção precária e a memória, um campo de batalha. O terror em Coração Satânico não reside no sobrenatural explícito, mas na erosão psicológica e na inevitabilidade de um acerto de contas.

A performance de Mickey Rourke é fundamental, capturando a transição de Angel da autoconfiança desgastada para um estado de pânico existencial. Robert De Niro, como Louis Cyphre, entrega uma atuação contida e precisa, onde cada gesto e cada palavra carregam um peso imensurável, estabelecendo uma dinâmica de poder que permeia toda a narrativa. O filme se destaca como um híbrido de gêneros que utiliza as convenções do cinema de detetive para explorar temas faustianos de dívida e danação. É um estudo sobre a natureza da alma e o preço de um contrato, onde a verdade final não oferece libertação, apenas a confirmação de que certas dívidas são impagáveis e o destino, uma vez selado, é absoluto.


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