Em uma versão saturada de Los Angeles, onde as palmeiras são o logo da Lacoste e a borboleta da MSN Messenger pousa sobre placas de neon, dois policiais Bibendum, os homens da Michelin, se envolvem em uma perseguição frenética. O fugitivo é um Ronald McDonald armado e perigoso, que sequestra um garoto refém, a mascote da Big Boy. O que se desdobra a partir dessa premissa é uma paródia meticulosa dos filmes de ação de Hollywood, com direito a tiroteios, diálogos ácidos e colisões espetaculares. O curta-metragem do coletivo francês H5, vencedor do Oscar em 2010, estabelece seu universo com uma clareza impressionante: aqui, absolutamente tudo, da arquitetura aos seres vivos, é construído a partir de logotipos e mascotes de marcas.
A construção visual de ‘Logorama’ é a sua tese. Com mais de 2.500 logos licenciados, o filme não usa as marcas como mero pano de fundo, mas como a própria matéria da realidade. É um exercício radical sobre a saturação imagética, uma espécie de hiper-realidade onde o signo não apenas representa, mas constitui o objeto. Os pombos são logotipos da Bentley, o letreiro de Hollywood é reconfigurado pela 20th Century Fox, e um zoológico aprisiona animais-símbolo como o leão da MGM e o crocodilo da Izod. A genialidade da obra está em usar uma narrativa convencional e facilmente reconhecível, a do thriller policial, como um veículo para expor a totalidade de um mundo governado pela semiótica do consumo. A familiaridade da trama torna a estranheza do ambiente ainda mais potente.
O clímax não é apenas a resolução da perseguição, mas um cataclismo geológico que fratura esse ecossistema corporativo. Um terremoto abre fendas no asfalto, liberando um dilúvio de petróleo bruto da marca Esso que inunda a cidade, afogando as marcas em seu próprio excesso. A paisagem urbana, uma colagem de promessas de mercado, desmorona sob o peso de sua própria artificialidade. O desfecho mostra o planeta transformado, com os continentes rearranjados para formar um novo e gigantesco símbolo comercial. A análise proposta pelo curta não aponta culpados, mas expõe, com uma ironia afiada e uma execução técnica impecável, as consequências lógicas de uma cultura que substituiu a substância pela sua representação publicitária.




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