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Filme: “Mandy: Sede de Vingança” (2018), Panos Cosmatos

Nas profundezas das Montanhas Sombrias, em 1983, o lenhador Red Miller e a artista Mandy Bloom partilham uma existência serena, um refúgio de metal progressivo e romances de fantasia isolado do mundo. A sua tranquilidade é uma bolha frágil, que se desfaz quando o seu caminho cruza com o dos Filhos da Nova Aurora, um…


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Nas profundezas das Montanhas Sombrias, em 1983, o lenhador Red Miller e a artista Mandy Bloom partilham uma existência serena, um refúgio de metal progressivo e romances de fantasia isolado do mundo. A sua tranquilidade é uma bolha frágil, que se desfaz quando o seu caminho cruza com o dos Filhos da Nova Aurora, um culto hippie liderado pelo músico frustrado e egomaníaco Jeremiah Sand. Obcecado pela presença etérea de Mandy, Jeremiah ordena a sua captura, convocando para isso uma gangue de motociclistas demoníacos, criaturas saídas de um delírio com LSD e couro. O que se segue não é uma simples abdução, mas a profanação de um santuário, culminando em um ato de crueldade que destrói o mundo de Red diante dos seus olhos.

A partir desse ponto, Panos Cosmatos abandona qualquer pretensão de narrativa convencional e mergulha o espectador numa jornada de retaliação que é tanto física quanto psicadélica. Red, consumido por uma dor que o deforma, forja um machado de batalha ornamentado e embarca em uma caçada para aniquilar cada membro do culto e os seus aliados sobrenaturais. A segunda metade de ‘Mandy: Sede de Vingança’ é uma ópera de violência estilizada, onde a vingança de um homem se transforma em uma descida a um inferno pessoal banhado em luzes de néon e filtros vermelhos. A narrativa torna-se um fluxo de consciência visual, pontuado por confrontos brutais, animações surreais e um humor negro inesperado, como a aparição de um comercial bizarro do “Cheddar Goblin”.

Panos Cosmatos não está interessado em um realismo cru, mas em uma imersão sensorial. A estética do filme, com a sua fotografia granulada e paleta cromática saturada, evoca a capa de um álbum de heavy metal dos anos 70 que ganhou vida. Cada frame é meticulosamente composto, transformando a raiva e o luto em uma paisagem de pesadelo. A experiência se aproxima do conceito do sublime, onde o terror e a grandiosidade se fundem em uma sensação avassaladora, amplificada pela trilha sonora hipnótica e pulsante de Jóhann Jóhannsson, a sua obra final, que funciona como um personagem por si só, guiando a cadência emocional da fúria de Red.

A performance de Nicolas Cage é o motor emocional que ancora toda a extravagância visual. Longe de ser apenas um exercício de excesso, a sua atuação é um estudo sobre o luto em sua forma mais primal. Uma cena em particular, passada em um banheiro, onde Red processa a sua perda em um monólogo de dor sem palavras, é um testemunho da sua capacidade de expressar a fratura da psique humana. A sua vingança não é uma jornada de redenção, mas um ritual de catarse violenta, a única linguagem que lhe resta para comunicar a sua devastação. ‘Mandy: Sede de Vingança’ utiliza a estrutura de um conto de retribuição para construir um poema febril sobre a dor, a perda e a fúria que arde quando o amor é extinto pela maldade banal.


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