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Filme: “Perdido em Marte” (2015), Ridley Scott

Em uma paisagem onde a única cor que importa é o vermelho-ferrugem, o astronauta e botânico Mark Watney é dado como morto e abandonado por sua tripulação durante uma violenta tempestade em Marte. O que se segue, em ‘Perdido em Marte’ de Ridley Scott, não é uma lamentação fúnebre sobre a solidão no cosmos, mas…


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Em uma paisagem onde a única cor que importa é o vermelho-ferrugem, o astronauta e botânico Mark Watney é dado como morto e abandonado por sua tripulação durante uma violenta tempestade em Marte. O que se segue, em ‘Perdido em Marte’ de Ridley Scott, não é uma lamentação fúnebre sobre a solidão no cosmos, mas um manual de sobrevivência incrivelmente lúcido e, surpreendentemente, bem-humorado. Sozinho no planeta vermelho, com suprimentos limitados e a comunicação com a Terra cortada, a tarefa de Watney não é meramente subsistir, é dominar um ambiente que mata tudo o que não está perfeitamente selado. Ele precisa “colonizar” seu pequeno canto de Marte para ter alguma chance de ser resgatado.

Onde muitos cineastas encontrariam o desespero existencial, Ridley Scott e o roteirista Drew Goddard descobrem um otimismo contagiante, canalizado pela performance central de Matt Damon. Seu Mark Watney é a antítese do astronauta atormentado. Ele é um solucionador de problemas por natureza, um cientista que encara o apocalipse pessoal com uma lista de tarefas, sarcasmo e um diário de bordo em vídeo que serve como o motor narrativo do filme. A lógica é sua arma e a ciência, sua religião. A jornada para cultivar batatas em solo marciano, utilizando seus próprios dejetos como fertilizante, é apresentada com a mesma tensão e engenhosidade de uma grande sequência de ação, transformando o método científico em puro entretenimento cinematográfico.

O filme se desdobra em dois palcos, alternando entre a luta pragmática de Watney em Marte e os esforços frenéticos na Terra. Na NASA, uma constelação de mentes brilhantes, burocratas e diretores de voo, interpretados por nomes como Jessica Chastain, Jeff Daniels e Chiwetel Ejiofor, mobiliza-se ao descobrir que seu astronauta ainda vive. Esta estrutura paralela evita a claustrofobia e expande a narrativa para uma celebração da colaboração internacional e da engenhosidade coletiva. A obra se deleita nos detalhes técnicos, nos cálculos de astrodinâmica e nas complexidades da engenharia espacial, fazendo com que cada pequena vitória, seja consertar um painel solar ou restabelecer a comunicação, pareça monumental.

Subjacente a toda a engenharia e cálculos de trajetória, pulsa uma ideia que remete ao absurdismo de Camus. Watney se encontra em uma situação fundamentalmente absurda, um homem contra um planeta inteiro, e sua resposta não é a angústia, mas a ação metódica e racional. Ele encontra propósito na tarefa impossível que tem pela frente, não por uma grande causa, mas pela simples lógica de que é o próximo passo a ser dado. Scott, conhecido por suas visões épicas e muitas vezes sombrias do futuro, entrega aqui seu trabalho mais luminoso. É uma peça de ficção científica que valoriza a competência acima do conflito, a inteligência acima do instinto, e sugere que o impulso mais fundamental da humanidade talvez seja o de estender a mão através do vazio para trazer alguém de volta para casa.


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