Cultivando arte e cultura insurgentes


Filme: “Ensaio de um Crime” (1955), Luis Buñuel

Archibaldo de la Cruz é um homem com uma particular obsessão. Ele se apresenta à polícia para confessar uma série de assassinatos minuciosamente planejados, nos quais as vítimas são sempre mulheres. A reviravolta, no entanto, é que cada uma dessas mortes nunca foi executada pelas mãos de Archibaldo; cada mulher pereceu por circunstâncias imprevistas ou…


Avatar de Hernandes Matias Junior

Twitter Instagram

Archibaldo de la Cruz é um homem com uma particular obsessão. Ele se apresenta à polícia para confessar uma série de assassinatos minuciosamente planejados, nos quais as vítimas são sempre mulheres. A reviravolta, no entanto, é que cada uma dessas mortes nunca foi executada pelas mãos de Archibaldo; cada mulher pereceu por circunstâncias imprevistas ou coincidências bizarras, sempre antes que ele pudesse concretizar seus macabros desejos. O filme ‘Ensaio de um Crime’ (Ensayo de un Crimen), dirigido por Luis Buñuel, mergulha nessa premissa perturbadora, transformando a narrativa de um suposto criminoso em uma comédia de humor negro sobre a frustração, o desejo e a ironia do destino.

A trama segue Archibaldo enquanto ele narra suas tentativas falhas, desde a primeira “vítima” na infância – uma governanta atingida por uma bala perdida durante um levante – até as subsequentes. Cada relato é acompanhado por flashbacks que ilustram não apenas o método que ele imaginava, mas também a maneira absurda e quase poética com que a vida, ou o acaso, intervinha. A obra explora a psique de um indivíduo que se define não por atos consumados, mas pela intenção persistente e pelo anseio de cometer uma transgressão, questionando a própria definição de culpabilidade e a linha tênue entre a fantasia interna e a realidade externa.

Buñuel, com sua assinatura surrealista e seu olhar cético sobre as convenções sociais, utiliza essa narrativa para dissecar a burguesia mexicana, suas hipocrisias e seus rituais. O filme não se preocupa em julgar Archibaldo, mas em observar sua inabilidade em materializar o mal que crê possuir. Essa incapacidade contínua de cometer o ato que o definiria como criminoso real, a despeito de todo o planejamento e desejo, propõe uma reflexão sobre a primazia da vontade. É a intenção o que realmente molda o caráter de Archibaldo, ou são os resultados fortuitos que anulam sua agência? A obra de Buñuel permanece um estudo singular sobre a complexidade da mente humana, o poder do acaso e a curiosa dança entre o que se deseja e o que de fato se pode alcançar.


Descubra mais sobre Café Comité

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading