Koen Mortier, com sua direção incisiva em “Ex Drummer”, nos lança em um submundo punk belga onde a deficiência física se torna ironicamente um passaporte para a autenticidade. Dries, um escritor de sucesso entediado com sua vida burguesa, é convidado para ser o baterista de uma banda punk formada por três sujeitos marginalizados: Koen, um vocalista gago e agressivo; Jan, um guitarrista com deficiência auditiva; e Ivan, um baixista sem um braço. Nenhum deles sabe tocar seus instrumentos. Dries, claro, também não sabe tocar bateria.
O que se segue é uma espiral descendente de caos, violência e degradação moral, com a banda se apresentando em locais decadentes e se envolvendo em comportamentos cada vez mais autodestrutivos. A deficiência dos membros da banda, inicialmente vista como uma forma de subversão, é gradualmente explorada e exacerbada pelo cinismo de Dries, que parece se alimentar do sofrimento alheio. A música, ou a cacofonia que eles produzem, é apenas um pretexto para a desordem.
“Ex Drummer” não busca redenção ou lições fáceis. É um estudo amargo sobre a natureza humana, a busca por significado em um mundo aparentemente absurdo, e a facilidade com que a busca pela autenticidade pode se degenerar em exploração e sadismo. A banda, em sua disfuncionalidade, espelha uma sociedade em desintegração, onde a linguagem e a comunicação falham, e a violência se torna a única forma de expressão. O niilismo sartreano paira sobre a narrativa, questionando a liberdade e a responsabilidade em um mundo desprovido de valores inerentes. A questão que permanece é: até onde estamos dispostos a ir para sentir algo, qualquer coisa, em um mundo que nos parece cada vez mais anestesiado?




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