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Filme: “Je t’aime, je t’aime” (1968), Alain Resnais

Claude Ridder, um homem de poucas palavras recuperando-se de um ato que não deu certo, recebe uma proposta singular de cientistas enigmáticos. Eles desenvolveram uma forma de viagem no tempo e precisam de um voluntário para um teste aparentemente simples: reviver um único minuto de seu passado recente. Para Ridder, que já não tem muito…


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Claude Ridder, um homem de poucas palavras recuperando-se de um ato que não deu certo, recebe uma proposta singular de cientistas enigmáticos. Eles desenvolveram uma forma de viagem no tempo e precisam de um voluntário para um teste aparentemente simples: reviver um único minuto de seu passado recente. Para Ridder, que já não tem muito a perder, a oferta parece uma distração inofensiva. Ele concorda e é posicionado dentro de uma estrutura orgânica, quase cômica, que se assemelha a uma abóbora ou a um cérebro gigante, um cenário muito distante das máquinas reluzentes da ficção científica tradicional. A promessa é de um retorno rápido e controlado a um momento específico, um ano antes, na praia de Nice.

O que se segue, no entanto, é uma falha sistêmica que se revela a verdadeira premissa da obra de Alain Resnais. O mecanismo falha, e Ridder é lançado não a um ponto fixo, mas a um fluxo caótico de momentos desconexos de sua vida. Ele salta, sem controle, entre fragmentos de seu relacionamento com sua amada Catrine. Somos apresentados a conversas triviais, férias à beira-mar, instantes de tédio, a presença constante de seu gato, discussões veladas e gestos de afeto, tudo apresentado fora de qualquer ordem cronológica. O filme se desdobra como um caleidoscópio da consciência de Ridder, onde o passado não é um lugar que se visita, mas um estado mental no qual se está perpetuamente preso.

O que Alain Resnais constrói em ‘Je t’aime, je t’aime’ é um dos exames mais precisos sobre a natureza da memória já levados ao cinema. A ficção científica aqui é menos sobre tecnologia e mais sobre a fenomenologia da consciência. A experiência de Ridder materializa a noção de duração (durée) de Henri Bergson, a percepção subjetiva do tempo em oposição ao tempo cronológico e objetivo do relógio. Nossa mente não arquiva o passado em pastas ordenadas; ela o revive em ondas, associações e repetições. Resnais e o roteirista Jacques Sternberg usam a montagem para simular esse processo, criando uma narrativa que é, em sua forma, o próprio tema. O filme se torna a anatomia de um romance e de um arrependimento, montada a partir dos destroços emocionais que a mente insiste em revisitar. O título, ‘Je t’aime, je t’aime’, deixa de ser uma declaração para se tornar o eco persistente de algo que já se foi, repetido incessantemente na câmara de ressonância da memória.


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