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Filme: “RocknRolla – A Grande Roubada” (2008), Guy Ritchie

No submundo de Londres, onde o boom imobiliário transforma tijolo e argamassa em ouro da noite para o dia, as regras do jogo estão a mudar. O poder já não se mede apenas pela força bruta, mas pela astúcia em negócios obscuros. É neste cenário de transição que Guy Ritchie situa a sua intrincada comédia…


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No submundo de Londres, onde o boom imobiliário transforma tijolo e argamassa em ouro da noite para o dia, as regras do jogo estão a mudar. O poder já não se mede apenas pela força bruta, mas pela astúcia em negócios obscuros. É neste cenário de transição que Guy Ritchie situa a sua intrincada comédia de erros e ambições. O gângster da velha guarda, Lenny Cole, domina a cidade através de uma teia de favores e corrupção burocrática, mas a sua hegemonia é desafiada pela chegada de Uri Omovich, um bilionário russo com planos para um mega empreendimento e um desprezo palpável pelas tradições locais. No meio deste choque de titãs, um trio de criminosos de pequena escala, conhecido como “The Wild Bunch” e liderado pelo charmoso mas perpetuamente endividado One Two, vê uma oportunidade de subir na vida. O que começa como um acordo imobiliário aparentemente simples, rapidamente se desintegra numa espiral de traições, roubos e identidades trocadas, tudo interligado por um elemento catalisador: uma pintura supostamente portadora de sorte, propriedade de Uri, que desaparece misteriosamente.

O que se desenrola é um balé cínico e meticulosamente coreografado, onde cada personagem acredita ser o manipulador principal, sem perceber que é apenas uma peça num mecanismo muito maior e mais impiedoso. A trama ramifica-se para incluir uma contabilista sedutora e calculista, dois capangas chechenos aparentemente indestrutíveis e, mais crucialmente, Johnny Quid, um roqueiro viciado, dado como morto, que funciona como o agente do caos e o improvável filósofo da história. É Quid quem articula a tese central, a noção de um “RocknRolla”, aquele indivíduo que não quer apenas uma fatia do bolo, mas o bolo inteiro. Esta busca incessante pelo controlo absoluto revela uma espécie de eterno retorno nietzschiano adaptado à criminalidade urbana: os jogadores podem mudar, as fortunas podem virar, mas a natureza predatória do jogo permanece imutável. A própria estrutura narrativa imita essa desordem, com subtramas que colidem de forma inesperada, impulsionadas por um diálogo que é, simultaneamente, uma arma e um mapa da hierarquia social.

A direção de Ritchie abandona a grandiloquência para se focar na energia cinética das ruas, usando a montagem não apenas como um artifício estético, mas como um motor narrativo que reflete a confusão e a urgência dos seus personagens. O filme funciona como uma análise mordaz da gentrificação do crime, onde a brutalidade de punhos de aço da velha escola de Lenny Cole se mostra cada vez mais obsoleta perante a criminalidade corporativa e globalizada de Uri. Não há aqui um exame moral sobre o bem e o mal; em vez disso, a obra apresenta um ecossistema funcional, governado por uma lógica interna de ganância e sobrevivência. A performance contida de Mark Strong como Archie, o braço direito de Lenny, ancora o filme com uma calma letal, enquanto Tom Hardy oferece um vislumbre de vulnerabilidade surpreendente. É um retrato preciso e sem sentimentalismo de um mundo onde a lealdade é um ativo negociável e a ambição, a única verdadeira moeda.


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