João Moreira Salles, vasculhando o arquivo familiar, encontra imagens da China revolucionária de 1966, filmadas por sua mãe durante uma viagem pessoal. A partir desse ponto de partida improvável, “No Intenso Agora” constrói uma narrativa complexa que entrelaça o fervor da Revolução Cultural chinesa com os eventos de maio de 1968 na França, a Primavera de Praga e até mesmo momentos do cotidiano brasileiro da época. Longe de oferecer um relato histórico tradicional, o filme se configura como uma reflexão sobre a natureza das imagens, sua capacidade de capturar a euforia coletiva e a fragilidade dos ideais.
Salles, com uma voz narrativa ponderada, evita o didatismo e opta por um tom ensaístico. As imagens de arquivo, muitas delas amadoras, ganham nova vida através da montagem cuidadosa e da trilha sonora melancólica, criando uma atmosfera de nostalgia agridoce. O filme explora a dialética entre o indivíduo e a multidão, questionando o papel da subjetividade na construção da memória coletiva. Ao contrapor as utopias revolucionárias com a realidade crua do presente, “No Intenso Agora” nos convida a refletir sobre os ciclos da história e a persistência da busca por transformação social, mesmo em tempos céticos. O filme sugere que o tempo, inexoravelmente, se move em espiral, levando-nos a revisitar os mesmos anseios, ainda que sob novas roupagens.




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