No país tropical onde a ironia floresce mais rápido que o jardim da vizinha, vive-se uma epopeia digna de Homero, mas sem a glória de Aquiles, pois aqui, a grande batalha se dá nas estantes empoeiradas e nos saldos literários desconsiderados. Dizem por aí, entre goles de café amargo e sotaques que se misturam feito caldo cultural mal mexido, que o brasileiro não lê. E é verdade.
As pessoas apontam para os preços dos livros. Então, lá vamos nós, desbravando esse argumento como quem navega os sete mares da falta de lógica. Se o brasileiro não lê por causa do preço exorbitante dos livros, então estaríamos todos lendo tanto quanto nossos bolsos permitissem, certo?
Errado. Com a certeza de quem aponta a própria incongruência, vemos que, na verdade, o brasileiro não lê nem mesmo a quantidade de livros que o seu dinheiro pobre coitado consegue pagar.
Enquanto as livrarias mais parecem cemitérios de páginas não viradas, as desculpas proliferam como capim no pasto da negligência cultural. “Ah, é caro demais!” – dizem alguns, mas esses mesmos, que clamam por preço justo, são os que esbanjam em cafés gourmet e gadgets de última geração. Parece que a carteira sofre de um caso agudo de seletividade, escolhendo apenas aquilo que não estimula as sinapses cerebrais.
No país onde o frevo dança e a corrupção faz valsa, a desculpa do preço caro do livro se torna o refúgio ideal para os incautos, aqueles que preferem usar a falta de leitura como uma medalha de honra. O status de “não leitor” é erguido como um estandarte, e o livro, coitado, permanece esquecido, mais solitário que um autor na sessão de autógrafos.
A verdade, embora as pessoas não admitam, é de que o brasileiro não lê porque ele não quer.









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