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Filme: “Rosencrantz & Guildenstern Estão Mortos” (1990), Tom Stoppard

Dois homens, uma estrada vazia e uma moeda que insiste em cair sempre com a mesma face para cima. Assim começa a jornada de Rosencrantz e Guildenstern, os coadjuvantes esquecidos da tragédia de Shakespeare, catapultados para o centro do palco na adaptação cinematográfica que o próprio dramaturgo Tom Stoppard dirigiu. Interpretados por um jovem Gary…


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Dois homens, uma estrada vazia e uma moeda que insiste em cair sempre com a mesma face para cima. Assim começa a jornada de Rosencrantz e Guildenstern, os coadjuvantes esquecidos da tragédia de Shakespeare, catapultados para o centro do palco na adaptação cinematográfica que o próprio dramaturgo Tom Stoppard dirigiu. Interpretados por um jovem Gary Oldman e um igualmente vibrante Tim Roth, os dois amigos são convocados ao castelo de Elsinore com uma missão que mal compreendem, perdidos nos corredores de uma conspiração real da qual só vislumbram fragmentos. Enquanto a trama principal de Hamlet se desenrola em grande parte fora de cena, eles passam o tempo com jogos de palavras, quebra-cabeças lógicos e questionamentos que flutuam entre o banal e o profundo, tentando decifrar o seu propósito em um mundo que opera com uma lógica que lhes escapa.

A confusão da dupla é amplificada pela chegada de uma trupe de atores itinerantes, liderada por uma figura cínica e onisciente que parece entender as regras do jogo muito melhor do que eles. Esses atores, especialistas em morrer no palco, servem como um coro grego distorcido, oferecendo pistas enigmáticas e performances que borram as linhas entre a encenação e a realidade. Rosencrantz e Guildenstern se tornam espectadores desavisados da sua própria história, reagindo aos eventos grandiosos de traição e vingança com a perplexidade de quem tropeçou no set de filmagem errado. A genialidade da obra de Stoppard está em usar a estrutura de uma das maiores peças da literatura ocidental como um sistema fechado e imutável, um destino pré-escrito contra o qual os dois protagonistas lutam com a única ferramenta que possuem: a linguagem.

Mais do que uma simples comédia de erros, o filme funciona como uma sofisticada análise sobre agência e determinismo. A jornada da dupla torna-se uma demonstração elegantemente cômica de um dilema existencial: o que fazer quando se é jogado no meio de uma história já em andamento, sem ter recebido o roteiro? Seus diálogos velozes e suas ginásticas verbais não são apenas entretenimento, mas tentativas desesperadas de impor ordem ao caos, de encontrar um sentido onde talvez não exista nenhum. Stoppard filma sua própria peça não como teatro filmado, mas como cinema puro, usando a paisagem e a profundidade de campo para sublinhar o isolamento e a insignificância de seus personagens diante da grandiosidade implacável de Elsinore.

A direção de Stoppard, em sua única incursão no cinema, revela um controle notável sobre o tom, equilibrando o humor intelectual com uma melancolia sutil. As atuações de Oldman e Roth são um estudo em si, uma dança de personalidades contrastantes unidas por uma sina compartilhada. Um é mais inquisitivo e ansioso, o outro mais pragmático e distraído, mas ambos estão na mesma viagem sem volta para a Inglaterra, carregando uma carta cujo conteúdo selará seu destino. O filme é uma peça de relojoaria verbal e visual, uma obra que pega as notas de rodapé da história e as transforma em um texto principal, oferecendo uma perspectiva única sobre o que significa ser uma engrenagem menor em uma máquina narrativa muito maior.


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