Nas dunas que cercam a cidade histórica de Timbuktu, a vida segue um ritmo próprio, alheio à agitação urbana. Ali, o pastor de gado Kidane vive em relativa paz com a sua esposa Satima, a sua filha Toya e o jovem guardião do seu rebanho, Issan. A sua tenda é um oásis de normalidade num mundo que subitamente se tornou irreconhecível. Não muito longe, nas ruas de terra da cidade, uma nova ordem foi imposta por extremistas religiosos. A música, o riso, os cigarros e o futebol foram banidos sob a bandeira negra. A vida quotidiana transformou-se num campo minado de proibições, onde uma vendedora de peixe é obrigada a usar luvas e um imã local tenta argumentar com os novos senhores usando a lógica do próprio Corão, sem sucesso. A câmara de Abderrahmane Sissako observa essa nova realidade não com a urgência de um noticiário, mas com a cadência poética e melancólica do próprio deserto.
O frágil equilíbrio da família de Kidane é quebrado quando uma das suas vacas, chamada GPS, danifica as redes de um pescador, Amadou. A confrontação que se segue resulta numa morte acidental, e Kidane é subitamente arrastado para o centro do poder, forçado a enfrentar o tribunal improvisado dos ocupantes. A sua tragédia pessoal serve como fio condutor para uma série de vinhetas que expõem a arquitetura do novo regime. Vemos jovens a jogar uma partida de futebol com uma bola invisível, um ato de pura imaginação contra a opressão. Observamos uma mulher a ser chicoteada em praça pública por cantar, mas que continua a cantar durante o seu castigo, transformando a sua dor numa melodia pungente. A narrativa fragmentada de Sissako demonstra como a cultura não precisa de grandes gestos para se manifestar; ela pulsa nos atos mais subtis do dia a dia.
O filme de Sissako distancia-se de uma representação monolítica dos ocupantes. Em vez de figuras puramente malévolas, encontramos homens perdidos nas suas próprias contradições. Jihadistas que fumam às escondidas, que debatem apaixonadamente sobre a qualidade de Lionel Messi ou que têm dificuldade em comunicar as suas ordens numa língua que mal dominam. Esta abordagem evoca uma espécie de banalidade do mal, onde a tirania não é exercida por titãs ideológicos, mas por burocratas medíocres que aplicam regras absurdas com uma seriedade assustadora. A cinematografia acentua esse contraste, justapondo a beleza majestosa e intemporal da paisagem do Sahel com a mesquinhez e a transitoriedade do drama humano.
Em última análise, Timbuktu é um estudo sobre a fragilidade de um sistema imposto pela força e a persistência do espírito humano através dos seus rituais mais simples. O filme não se apoia em confrontos espetaculares, mas na observação paciente das pequenas fissuras que aparecem na fachada de qualquer regime totalitário. A força da obra reside na sua contenção, na sua elegância visual e na forma como capta a dissonância entre a imposição de uma ideologia rígida e a fluidez incontrolável da vida. É um registo sóbrio e visualmente deslumbrante sobre como, mesmo quando a melodia é proibida, as pessoas encontram uma maneira de manter a música a tocar dentro de si.




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