Agosto de 1715. Nos opulentos aposentos de Versalhes, Luís XIV, o Rei Sol, sente uma dor aguda na perna após uma caçada. O que começa como um mal-estar trivial rapidamente se revela o princípio do fim. Confinado ao seu leito, o monarca mais poderoso da Europa torna-se o centro de um espetáculo imóvel e angustiante. O filme de Albert Serra, ‘A Morte de Luís XIV’, documenta com uma precisão quase forense os últimos dias do rei, transformando o quarto real num palco onde a medicina do século XVIII, com sua mistura de empirismo e charlatanismo, tenta desesperadamente reverter o inevitável avanço da gangrena. A narrativa se desenrola quase inteiramente dentro deste espaço claustrofóbico, observando os rituais da corte, as consultas médicas e a lenta, inexorável deterioração do corpo real.
A câmera de Albert Serra é paciente, quase imóvel, banhando as cenas numa penumbra que remete diretamente às pinturas de Rembrandt e Georges de La Tour. A luz de velas esculpe os rostos preocupados dos cortesãos e médicos, criando uma atmosfera densa e sufocante que anula qualquer grandiosidade associada à realeza. O filme dispensa a ação e os eventos históricos que ocorrem fora daquelas paredes. O que importa é a temporalidade da agonia, a duração de cada respiração difícil, o som de um líquido sendo engolido com esforço. É uma observação clínica do processo de morrer, despojada de sentimentalismo, focada na textura dos tecidos, no brilho febril da pele e na impotência da ciência e do poder diante da biologia. A obra estabelece um ritmo próprio, que força o espectador a confrontar a passagem do tempo de forma visceral.
Em sua essência, o filme explora a profunda dissociação entre o corpo físico e o corpo simbólico do poder. É quase uma encarnação cinematográfica do conceito de ‘Os Dois Corpos do Rei’ de Ernst Kantorowicz: enquanto o corpo do homem, Luís, apodrece de forma muito humana e pouco digna, o corpo do Rei, a instituição abstrata e imortal, precisa ter sua continuidade e transição cuidadosamente orquestradas pelo cerimonial da corte. Cada gesto, cada visita, cada parecer médico é parte de um ritual que visa controlar o caos da decadência física e preservar a ordem do Estado. A grandeza da monarquia absoluta é confrontada com a fragilidade orgânica de um homem cujo poder não consegue deter a falência de suas próprias células.
A performance de Jean-Pierre Léaud, ícone da Nouvelle Vague, é um feito de contenção e fisicalidade mínima. Confinado à cama durante quase todo o filme, seu trabalho é sobre a progressiva ausência, o apagamento gradual da vitalidade. Sua presença é magnética mesmo na imobilidade, capturando a frustração, a dor e a resignação de um homem acostumado a comandar o mundo, agora prisioneiro do próprio corpo. ‘A Morte de Luís XIV’ não é um drama histórico convencional; é um estudo radical sobre a duração, a mortalidade e o ritual, uma obra que desmonta a pompa da narrativa histórica para se concentrar no inevitável processo biológico que iguala todos, até mesmo um Rei Sol.




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