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Filme: “A Cerimônia” (1971), Nagisa Ôshima

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Em A Cerimônia, de Nagisa Ôshima, uma série de rituais familiares serve como palco para a dissecação implacável da história japonesa do século XX. A narrativa acompanha Masuo Sakurada, um jovem membro de um clã aristocrático abastado, enquanto ele navega por uma sucessão de casamentos e funerais que marcam a trajetória de sua família desde o final da Segunda Guerra Mundial. Cada cerimônia, em vez de celebrar ou lamentar, funciona como um gatilho para memórias fragmentadas e perturbadoras que expõem as fundações apodrecidas sobre as quais a honra e a fortuna dos Sakurada foram construídas. A formalidade rígida dos eventos contrasta brutalmente com a desordem psicológica e moral que borbulha sob a superfície.

O longa opera como um microcosmo da nação, onde a história pessoal de Masuo e seus parentes se entrelaça com os traumas coletivos do Japão. Ôshima articula a conexão direta entre o fracasso do militarismo imperial, a repressão sexual e a hipocrisia social que definiram a era pós-guerra. O patriarca da família, figura de poder absoluto cujas decisões moldaram o destino de todos, representa a velha ordem autoritária, enquanto seus descendentes personificam as consequências de suas ambições e segredos, incluindo a obscura herança ligada às atividades da família na Manchúria. O filme demonstra como as estruturas de poder, tanto nacionais quanto domésticas, perpetuam ciclos de abuso e silenciamento.

Mais do que um drama familiar, A Cerimônia é um estudo sobre o esvaziamento do rito, onde as tradições perdem seu significado e se transformam em performances vazias para manter as aparências. A direção de Ôshima é precisa e calculada, utilizando composições de cena quase teatrais para sublinhar a artificialidade dos encontros familiares. Em um dos dispositivos mais singulares do filme, parentes ausentes ou falecidos são incluídos nas cerimônias, com seus lugares à mesa e seus nomes evocados como se estivessem presentes, um ato que ilustra a incapacidade do clã de confrontar a realidade de sua própria desintegração. É um olhar clínico sobre como uma sociedade, e uma família, pode ser assombrada não pelo que aconteceu, mas pela recusa sistemática em reconhecer os fatos.

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Em A Cerimônia, de Nagisa Ôshima, uma série de rituais familiares serve como palco para a dissecação implacável da história japonesa do século XX. A narrativa acompanha Masuo Sakurada, um jovem membro de um clã aristocrático abastado, enquanto ele navega por uma sucessão de casamentos e funerais que marcam a trajetória de sua família desde o final da Segunda Guerra Mundial. Cada cerimônia, em vez de celebrar ou lamentar, funciona como um gatilho para memórias fragmentadas e perturbadoras que expõem as fundações apodrecidas sobre as quais a honra e a fortuna dos Sakurada foram construídas. A formalidade rígida dos eventos contrasta brutalmente com a desordem psicológica e moral que borbulha sob a superfície.

O longa opera como um microcosmo da nação, onde a história pessoal de Masuo e seus parentes se entrelaça com os traumas coletivos do Japão. Ôshima articula a conexão direta entre o fracasso do militarismo imperial, a repressão sexual e a hipocrisia social que definiram a era pós-guerra. O patriarca da família, figura de poder absoluto cujas decisões moldaram o destino de todos, representa a velha ordem autoritária, enquanto seus descendentes personificam as consequências de suas ambições e segredos, incluindo a obscura herança ligada às atividades da família na Manchúria. O filme demonstra como as estruturas de poder, tanto nacionais quanto domésticas, perpetuam ciclos de abuso e silenciamento.

Mais do que um drama familiar, A Cerimônia é um estudo sobre o esvaziamento do rito, onde as tradições perdem seu significado e se transformam em performances vazias para manter as aparências. A direção de Ôshima é precisa e calculada, utilizando composições de cena quase teatrais para sublinhar a artificialidade dos encontros familiares. Em um dos dispositivos mais singulares do filme, parentes ausentes ou falecidos são incluídos nas cerimônias, com seus lugares à mesa e seus nomes evocados como se estivessem presentes, um ato que ilustra a incapacidade do clã de confrontar a realidade de sua própria desintegração. É um olhar clínico sobre como uma sociedade, e uma família, pode ser assombrada não pelo que aconteceu, mas pela recusa sistemática em reconhecer os fatos.

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