Em meio ao verniz otimista da década de 1990, a arquitetura de uma família de São Francisco começa a ruir. Daniel Hillard, um talentoso ator de voz com uma veia anárquica e um desprezo pela autoridade, se vê subitamente sem emprego e, mais devastadoramente, sem acesso diário aos seus três filhos após um divórcio litigioso. A sua ex-esposa, Miranda, pragmática e sobrecarregada, busca estabilidade e impõe uma ordem que Daniel, em sua essência caótica e afetuosa, não consegue prover. A decisão judicial é um golpe preciso: para ver os filhos, ele precisa se tornar um homem diferente, mais responsável. Ou, como a trama de Uma Babá Quase Perfeita sugere, talvez uma mulher diferente. A necessidade de Miranda por uma governanta se torna a porta de entrada para um dos planos mais absurdos e comoventes do cinema da época, um ato de desespero mascarado de comédia.
A transformação de Daniel na Sra. Euphegenia Doubtfire, uma babá escocesa de modos firmes e coração de ouro, é o motor da obra de Chris Columbus. Contudo, o filme habilmente se desvia do mero espetáculo de um homem em traje feminino. A performance de Robin Williams é uma aula de contenção e explosão, alternando entre a fisicalidade de Daniel e a postura contida da Sra. Doubtfire. É aqui que a narrativa explora um conceito fundamental: a construção de uma persona. A máscara social que Daniel adota, completa com látex, peruca e um sotaque impecável, paradoxalmente o liberta para se tornar o pai que ele sempre quis ser. Como Sra. Doubtfire, ele impõe regras, supervisiona o dever de casa e oferece conselhos sábios, qualidades que o Daniel original, impulsivo e brincalhão, era incapaz de sustentar. A comédia surge do atrito constante entre essas duas identidades, especialmente quando um novo e elegante pretendente para Miranda, Stu Dunmeyer, entra em cena, forçando Daniel a sabotagens hilárias enquanto mantém a fachada de sua matriarca escocesa.
O que eleva Uma Babá Quase Perfeita para além da sua premissa de alto conceito é a sua recusa em oferecer soluções simplistas para problemas complexos. A direção de Columbus encontra um equilíbrio delicado, usando o humor como um veículo para examinar a dor genuína do divórcio e o impacto da separação nos filhos, que se encontram no centro desse furacão emocional. A famosa cena do clímax no restaurante é um tour de force de tensão e comédia, onde as duas personas de Daniel colidem de forma espetacular e inevitável. A resolução do filme é o seu ponto mais maduro e duradouro. Não há uma reconciliação mágica do casal. Em vez disso, a obra defende que o amor parental pode e deve assumir novas formas, adaptando-se a uma nova estrutura familiar. O legado de Uma Babá Quase Perfeita está em sua capacidade de tratar a dissolução de uma família com honestidade e, ao mesmo tempo, com uma dose generosa de otimismo, sugerindo que mesmo após o fim de um casamento, uma família pode se reorganizar de maneiras inesperadas e ainda funcionais.









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