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Fala infeliz de Mellody Queen não a torna uma homofóbica

O deslize de Mellody no segundo episódio da segunda temporada de Drag Race Brasil reacendeu uma velha mania de hierarquizar dores dentro da sigla

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A cena foi rápida e nasceu daquele lugar de confessionário que reality show adora. Mellody Queen, mulher trans participante da segunda temporada de Drag Race Brasil, comentava sobre violência e soltou a frase “homofobia é forte, mas transfobia mata”. O recorte circulou e o “mas” fez estrago. O que chegou aos feeds foi uma escala implícita em que sofrer homofobia seria grave porém suportável enquanto a transfobia ocuparia o topo do horror absoluto. Entendo por que muitos gays se sentiram diminuídos. Em um país onde agressões e assassinatos de pessoas LGBT+ aparecem com frequência, a ideia de que uma dessas violências é só “forte” toca numa ferida aberta.

Antes de levantar qualquer cartaz vale respirar e ouvir a intenção. Pessoas trans no Brasil vivem sob risco desproporcional e Mellody falava a partir dessa experiência encarnada. Não há dúvida de que a transfobia é letal. O problema está no atalho retórico que usa a dor de um grupo para dar ênfase à de outro. Linguagem comparativa vira ranking afetivo e rapidamente se transforma em competição de vítimas. Quando a conversa cai nesse jogo, ninguém ganha exceto quem lucra com a nossa desunião.

Chamar Mellody de homofóbica por causa de uma frase mal calibrada é desmedido. Homofobia não é só escorregar na formulação. É sustentar crenças ou práticas que inferiorizam pessoas gay ou que negam a elas direitos concretos. Não vimos Mellody defender algo assim. Vimos um comentário infeliz sob pressão de câmera e edição. Pessoas escorregam. Se cada tropeço virar etiqueta definitiva esvaziamos o sentido das palavras e transformamos qualquer diálogo em tribunal.

Do outro lado, gays que manifestaram incômodo não se tornam automaticamente transfóbicos. Transfobia é negar humanidade e direitos a pessoas trans ou perpetuar estruturas que as colocam em risco. Sentir-se ferido ao ouvir que sua violência é menos importante não é isso. É reação legítima. A suposta regra que é proibido discordar de mulher trans reforça infantilização e não ajuda ninguém. Podemos ouvir Mellody e ao mesmo tempo dizer que a frase não funciona porque relativiza uma violência histórica sofrida por gays.

Vale lembrar que as fronteiras entre as letras da sigla são porosas. Há pessoas trans gay, lésbicas que transitam por identidades, bissexuais que sofrem múltiplas formas de estigma. A homofobia que atinge um rapaz afeminado na rua e a transfobia que persegue uma travesti expulsando-a do mercado formal de trabalho nascem de uma mesma matriz de ódio ao gênero dissidente. Não precisamos disputar quem apanha mais para reconhecer especificidades. Podemos afirmar ao mesmo tempo que homofobia é devastadora e que transfobia é devastadora e, sim, tem recortes particularmente letais em certos contextos. O conectivo certo não é “mas”. É “e”.

Se Mellody pretendia sublinhar a escalada extrema de violência contra pessoas trans, há formas de dizer sem rebaixar ninguém. Algo como: Homofobia e transfobia fazem estragos profundos. Pessoas trans enfrentam ainda taxas altíssimas de assassinato e exclusão. Essa estrutura mata. A nuance mantém a porta aberta para solidariedade. Não se trata de policiar fala com régua moralista. Trata-se de cultivar precisão quando falamos de violência que nos atravessa.

Também precisamos olhar para o dispositivo midiático. Reality show edita falas, contrasta depoimentos, procura drama. Uma frase isolada sai do contexto e vira manchete porque rende engajamento. A plateia entra na dança e distribui rótulos em série. Resistir a esse reflexo é tarefa de quem quer comunidade viva depois da temporada terminar. Quando algo pega mal, o melhor caminho é a conversa direta, pedido de esclarecimento, abertura para retratação. Cancelamento instantâneo destrói o senso de frente ampla que historicamente garantiu avanços mínimos em direitos LGBT+ no Brasil.

Fica a lição: cuidado com o “mas” quando falamos de opressões irmãs. Se a sua frase exige rebaixar a dor de alguém para que a sua seja levada a sério, reescreva. Se alguém escorrega, critique a frase, não anule a pessoa. Se você se sentiu atacado, diga isso sem devolver com um rótulo pesado que não corresponde ao ocorrido. Palavras importam porque são o que temos para construir alianças. E alianças são o que temos diante de sistemas que nos preferem divididos.

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A cena foi rápida e nasceu daquele lugar de confessionário que reality show adora. Mellody Queen, mulher trans participante da segunda temporada de Drag Race Brasil, comentava sobre violência e soltou a frase “homofobia é forte, mas transfobia mata”. O recorte circulou e o “mas” fez estrago. O que chegou aos feeds foi uma escala implícita em que sofrer homofobia seria grave porém suportável enquanto a transfobia ocuparia o topo do horror absoluto. Entendo por que muitos gays se sentiram diminuídos. Em um país onde agressões e assassinatos de pessoas LGBT+ aparecem com frequência, a ideia de que uma dessas violências é só “forte” toca numa ferida aberta.

Antes de levantar qualquer cartaz vale respirar e ouvir a intenção. Pessoas trans no Brasil vivem sob risco desproporcional e Mellody falava a partir dessa experiência encarnada. Não há dúvida de que a transfobia é letal. O problema está no atalho retórico que usa a dor de um grupo para dar ênfase à de outro. Linguagem comparativa vira ranking afetivo e rapidamente se transforma em competição de vítimas. Quando a conversa cai nesse jogo, ninguém ganha exceto quem lucra com a nossa desunião.

Chamar Mellody de homofóbica por causa de uma frase mal calibrada é desmedido. Homofobia não é só escorregar na formulação. É sustentar crenças ou práticas que inferiorizam pessoas gay ou que negam a elas direitos concretos. Não vimos Mellody defender algo assim. Vimos um comentário infeliz sob pressão de câmera e edição. Pessoas escorregam. Se cada tropeço virar etiqueta definitiva esvaziamos o sentido das palavras e transformamos qualquer diálogo em tribunal.

Do outro lado, gays que manifestaram incômodo não se tornam automaticamente transfóbicos. Transfobia é negar humanidade e direitos a pessoas trans ou perpetuar estruturas que as colocam em risco. Sentir-se ferido ao ouvir que sua violência é menos importante não é isso. É reação legítima. A suposta regra que é proibido discordar de mulher trans reforça infantilização e não ajuda ninguém. Podemos ouvir Mellody e ao mesmo tempo dizer que a frase não funciona porque relativiza uma violência histórica sofrida por gays.

Vale lembrar que as fronteiras entre as letras da sigla são porosas. Há pessoas trans gay, lésbicas que transitam por identidades, bissexuais que sofrem múltiplas formas de estigma. A homofobia que atinge um rapaz afeminado na rua e a transfobia que persegue uma travesti expulsando-a do mercado formal de trabalho nascem de uma mesma matriz de ódio ao gênero dissidente. Não precisamos disputar quem apanha mais para reconhecer especificidades. Podemos afirmar ao mesmo tempo que homofobia é devastadora e que transfobia é devastadora e, sim, tem recortes particularmente letais em certos contextos. O conectivo certo não é “mas”. É “e”.

Se Mellody pretendia sublinhar a escalada extrema de violência contra pessoas trans, há formas de dizer sem rebaixar ninguém. Algo como: Homofobia e transfobia fazem estragos profundos. Pessoas trans enfrentam ainda taxas altíssimas de assassinato e exclusão. Essa estrutura mata. A nuance mantém a porta aberta para solidariedade. Não se trata de policiar fala com régua moralista. Trata-se de cultivar precisão quando falamos de violência que nos atravessa.

Também precisamos olhar para o dispositivo midiático. Reality show edita falas, contrasta depoimentos, procura drama. Uma frase isolada sai do contexto e vira manchete porque rende engajamento. A plateia entra na dança e distribui rótulos em série. Resistir a esse reflexo é tarefa de quem quer comunidade viva depois da temporada terminar. Quando algo pega mal, o melhor caminho é a conversa direta, pedido de esclarecimento, abertura para retratação. Cancelamento instantâneo destrói o senso de frente ampla que historicamente garantiu avanços mínimos em direitos LGBT+ no Brasil.

Fica a lição: cuidado com o “mas” quando falamos de opressões irmãs. Se a sua frase exige rebaixar a dor de alguém para que a sua seja levada a sério, reescreva. Se alguém escorrega, critique a frase, não anule a pessoa. Se você se sentiu atacado, diga isso sem devolver com um rótulo pesado que não corresponde ao ocorrido. Palavras importam porque são o que temos para construir alianças. E alianças são o que temos diante de sistemas que nos preferem divididos.

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