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Filme: “Vício Maldito” (1962), Blake Edwards

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Joe Clay navega pelo universo das relações públicas de São Francisco com a fluidez de quem entende que o sucesso profissional é lubrificado por coquetéis e uma sociabilidade constante. Ele é um homem do seu tempo, imerso numa cultura corporativa onde o álcool não é um vício, mas uma ferramenta. Seu caminho cruza com o de Kirsten Arnesen, uma secretária cuja retidão e abstinência inicial representam um contraponto direto ao seu mundo. Fascinado, Joe a introduz ao prazer de um Brandy Alexander, um gesto que sela o início de um romance e, simultaneamente, planta a semente de uma dependência mútua. O que começa como uma cumplicidade charmosa, regada a encontros em bares e festas, evolui para um casamento onde a garrafa se torna o terceiro e mais presente membro da família.

A narrativa de Blake Edwards documenta a queda vertiginosa do casal com uma precisão quase clínica. A euforia inicial do amor e da bebida gradualmente se corrompe, dando lugar a uma espiral destrutiva de empregos perdidos, promessas quebradas e uma degradação mútua que se alimenta da própria codependência. A jornada os leva de apartamentos promissores a moradias decadentes, culminando em momentos de desespero cru, como a busca frenética de Joe por uma garrafa escondida no viveiro de seu sogro. O filme não se apoia em grandes catástrofes, mas na lenta e inexorável erosão da dignidade, do amor-próprio e da identidade, mostrando como o alcoolismo pode redefinir completamente a existência de uma pessoa, transformando o amor em uma forma de aprisionamento compartilhado.

Em ‘Vício Maldito’, Edwards, mais conhecido por suas comédias sofisticadas, abandona o humor para dissecar a anatomia de uma adicção com uma sobriedade estilística desconcertante. Sua direção é observacional, quase documental, recusando-se a sentimentalizar o sofrimento de seus personagens ou a oferecer explicações fáceis para suas escolhas. O peso da obra repousa nas atuações monumentais de Jack Lemmon e Lee Remick. Lemmon desconstrói sua persona de homem comum e cômico para revelar o terror e a patologia por trás de um sorriso trêmulo. Remick, por sua vez, realiza uma transformação devastadora, passando de uma mulher vibrante e independente para uma figura frágil, cuja identidade se dissolveu no álcool. A química entre os dois é o coração pulsante do filme, tornando sua descida conjunta ainda mais perturbadora.

A obra funciona como uma exploração sobre a natureza da liberdade e como ela pode ser paradoxalmente perdida através do exercício da própria escolha. Joe e Kirsten escolhem beber, inicialmente como um ato social, uma afirmação de liberdade e prazer. Contudo, a repetição dessa escolha acaba por aniquilar a sua capacidade de escolher, aprisionando-os numa rotina de necessidade. A luta de Joe para se recuperar com a ajuda dos Alcoólicos Anônimos não é apresentada como uma redenção gloriosa, mas como a dolorosa tentativa de reconquistar a agência sobre a própria vida, uma decisão de cada vez. A trilha sonora de Henry Mancini, com seu tema melancólico e assombroso, ecoa essa perda, conferindo ao filme uma atmosfera de tristeza indelével que permanece muito depois que os créditos sobem.

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Joe Clay navega pelo universo das relações públicas de São Francisco com a fluidez de quem entende que o sucesso profissional é lubrificado por coquetéis e uma sociabilidade constante. Ele é um homem do seu tempo, imerso numa cultura corporativa onde o álcool não é um vício, mas uma ferramenta. Seu caminho cruza com o de Kirsten Arnesen, uma secretária cuja retidão e abstinência inicial representam um contraponto direto ao seu mundo. Fascinado, Joe a introduz ao prazer de um Brandy Alexander, um gesto que sela o início de um romance e, simultaneamente, planta a semente de uma dependência mútua. O que começa como uma cumplicidade charmosa, regada a encontros em bares e festas, evolui para um casamento onde a garrafa se torna o terceiro e mais presente membro da família.

A narrativa de Blake Edwards documenta a queda vertiginosa do casal com uma precisão quase clínica. A euforia inicial do amor e da bebida gradualmente se corrompe, dando lugar a uma espiral destrutiva de empregos perdidos, promessas quebradas e uma degradação mútua que se alimenta da própria codependência. A jornada os leva de apartamentos promissores a moradias decadentes, culminando em momentos de desespero cru, como a busca frenética de Joe por uma garrafa escondida no viveiro de seu sogro. O filme não se apoia em grandes catástrofes, mas na lenta e inexorável erosão da dignidade, do amor-próprio e da identidade, mostrando como o alcoolismo pode redefinir completamente a existência de uma pessoa, transformando o amor em uma forma de aprisionamento compartilhado.

Em ‘Vício Maldito’, Edwards, mais conhecido por suas comédias sofisticadas, abandona o humor para dissecar a anatomia de uma adicção com uma sobriedade estilística desconcertante. Sua direção é observacional, quase documental, recusando-se a sentimentalizar o sofrimento de seus personagens ou a oferecer explicações fáceis para suas escolhas. O peso da obra repousa nas atuações monumentais de Jack Lemmon e Lee Remick. Lemmon desconstrói sua persona de homem comum e cômico para revelar o terror e a patologia por trás de um sorriso trêmulo. Remick, por sua vez, realiza uma transformação devastadora, passando de uma mulher vibrante e independente para uma figura frágil, cuja identidade se dissolveu no álcool. A química entre os dois é o coração pulsante do filme, tornando sua descida conjunta ainda mais perturbadora.

A obra funciona como uma exploração sobre a natureza da liberdade e como ela pode ser paradoxalmente perdida através do exercício da própria escolha. Joe e Kirsten escolhem beber, inicialmente como um ato social, uma afirmação de liberdade e prazer. Contudo, a repetição dessa escolha acaba por aniquilar a sua capacidade de escolher, aprisionando-os numa rotina de necessidade. A luta de Joe para se recuperar com a ajuda dos Alcoólicos Anônimos não é apresentada como uma redenção gloriosa, mas como a dolorosa tentativa de reconquistar a agência sobre a própria vida, uma decisão de cada vez. A trilha sonora de Henry Mancini, com seu tema melancólico e assombroso, ecoa essa perda, conferindo ao filme uma atmosfera de tristeza indelével que permanece muito depois que os créditos sobem.

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