O som do aço contra o aço e o vapor que obscurece a visão são o cenário onde Abel Gance desenrola uma das mais febris tragédias familiares do cinema mudo. A Roda começa com um desastre ferroviário, um evento caótico do qual o maquinista Sisif resgata uma pequena órfã, Norma. Ele a leva para casa e decide criá-la como sua, ao lado do seu filho biológico, Elie. A mentira sobre a sua origem, um ato de compaixão inicial, torna-se a fundação de um drama psicológico que se desdobrará ao longo de anos, movido pela força implacável das locomotivas que dominam as suas vidas e a paisagem. A ferrovia não é apenas um pano de fundo; é uma entidade pulsante, cujos ritmos ditam o trabalho, a vida e, eventualmente, a desintegração emocional dos personagens.
Conforme Norma floresce, a dinâmica familiar se envenena. Sisif, o pai adotivo, passa a nutrir por ela um afeto que ultrapassa o paternal, uma obsessão silenciosa e torturante. Simultaneamente, seu filho Elie também se apaixona por aquela que acredita ser sua irmã. A casa, antes um refúgio, transforma-se numa arena de desejos reprimidos e ciúmes velados, onde cada olhar carrega um peso insuportável. A tensão é amplificada pela presença de um pretendente externo, um engenheiro que representa uma fuga para Norma, mas uma ameaça existencial para Sisif e Elie. A narrativa avança com a inevitabilidade de um trem desgovernado, rumo a uma colisão de afetos impossíveis.
O que torna A Roda uma peça fundamental na história do cinema é a forma como Gance traduz essa turbulência interna em linguagem visual. Lançando mão de uma montagem radicalmente rápida para a época, o cineasta cria uma síncope visual, um bombardeio de imagens curtas que espelham o estado febril da mente de Sisif. Os cortes acelerados, as sobreposições e a composição arrojada dos planos não são meros artifícios; são a própria manifestação da ansiedade e da pressão psicológica. O nome do protagonista, Sisif, não é acidental, evocando o mito de Sísifo e seu castigo eterno. Como a figura mítica, o maquinista está preso a um ciclo de trabalho repetitivo e a um sofrimento emocional do qual não há escape, com a roda do trem servindo como a metáfora perfeita para a sua condição cíclica e dolorosa. A obra de Gance é menos um melodrama sentimental e mais um estudo clínico sobre como o ambiente industrial e os segredos familiares podem moldar e fraturar a psique humana.




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