La libertad, a obra seminal de Lisandro Alonso que ajudou a definir os contornos do Novo Cinema Argentino, acompanha um dia na vida de Misael Saavedra, um lenhador que vive e trabalha isolado nas vastas e áridas planícies dos pampas. O filme documenta, com uma paciência quase intransigente, a sua rotina: Misael acorda, afia seu machado, derruba uma árvore, corta a madeira em toras, carrega sua velha caminhonete, viaja até uma cidade próxima para vender a carga, compra provisões e retorna para sua cabana. Não há um enredo dramático convencional, conflitos externos ou diálogos expositivos. A narrativa é o próprio trabalho, a repetição de gestos que compõem a totalidade da existência do seu protagonista, que se interpreta a si mesmo numa performance que dissolve as fronteiras entre documentário e ficção.
O que Alonso constrói é um cinema da imanência, focado na fisicalidade e na duração. As longas tomadas ininterruptas não servem para gerar suspense, mas para imergir o espectador no ritmo e no peso do trabalho de Misael. A câmera não julga nem romantiza; ela testemunha a interação entre corpo, ferramenta e natureza. Nesse sentido, o filme se aproxima de uma crua representação do Dasein heideggeriano, o “ser-aí”, onde a existência de um indivíduo é inseparável do seu mundo e das suas práticas cotidianas. A identidade de Misael não é algo a ser descoberto através da psicologia, mas é observada na forma como ele maneja o machado, na sua respiração ofegante, no seu olhar focado na tarefa à frente. A liberdade sugerida no título não é uma questão de escolha ou de fuga, mas talvez a aceitação plena de um ciclo de vida autossuficiente, alheio às complexidades e ansiedades da sociedade moderna.
Ao despir o cinema de seus artifícios mais comuns, Lisandro Alonso estabelece um vocabulário que marcaria sua filmografia posterior. A obra não se apoia em uma estrutura de causa e efeito, mas na observação de um estado de ser. A comunicação se dá mais pelo som da mata, pelo motor da caminhonete e pelo impacto da lâmina na madeira do que por palavras. É uma experiência cinematográfica que reorganiza a atenção do espectador, direcionando-a para a textura do real, para o tempo que passa, para a simples e profunda coreografia da subsistência. A liberdade, aqui, talvez seja a pura e ininterrupta cadência de existir.




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