No coração de Salem, Massachusetts, em 1693, as irmãs Sanderson – Winifred, Mary e Sarah – selaram seu destino ao serem enforcadas por bruxaria, não sem antes proferirem uma maldição que garantiria seu retorno caso um jovem virgem acendesse a vela da chama negra na noite de Halloween. Trezentos anos depois, na efervescência de um Halloween contemporâneo, o ceticismo adolescente de Max Dennison o leva a cumprir exatamente essa profecia. O retorno das bruxas, interpretadas com maestria por Bette Midler, Sarah Jessica Parker e Kathy Najimy, inicia uma corrida contra o tempo em que elas precisam drenar a essência vital das crianças da cidade para garantir sua imortalidade antes do amanhecer, enquanto Max, sua irmã Dani e a colega Allison, com a inesperada ajuda de um gato falante, lutam para impedi-las.
Abracadabra, sob a direção ágil de Kenny Ortega, explora a comédia gerada pelo choque temporal. As irmãs Sanderson são anacronismos ambulantes, suas artimanhas arcaicas e sua visão de mundo pré-iluminista colidindo comicamente com a tecnologia e os costumes do século XX. Bette Midler, como a impetuosa Winifred, lidera o trio com uma energia teatral que se torna o motor da narrativa, enquanto Parker e Najimy complementam com peculiaridades que dão profundidade a figuras que, de outra forma, seriam unidimensionais. A forma como elas navegam, ou melhor, tropeçam, pelo mundo moderno, desde ônibus urbanos a academias de ginástica, é uma fonte constante de divertimento e um comentário sutil sobre a persistência da ingenuidade em face da evolução.
O filme, apesar de seu tom leve, mergulha na intersecção entre o passado e o presente, e como antigas crenças e medos podem ressurgir sob novas formas. Halloween, por si só, atua como um portal, um momento liminar onde o véu entre o ordinário e o extraordinário se torna mais tênue. A lenda das bruxas de Salem, inicialmente motivo de escárnio para os jovens, materializa-se, forçando-os a confrontar a realidade de um folclore que muitos preferem relegar ao reino da superstição. Há aqui uma observação sobre como o conhecimento histórico e a memória cultural, mesmo que desacreditados, possuem uma força subjacente que pode se manifestar, desafiando a lógica cartesiana da modernidade. A vitalidade das crianças torna-se o recurso cobiçado, transformando a infância em um símbolo de renovação, um contraste gritante com a obsessão das bruxas pela juventude eterna.
A estética visual de Abracadabra, com seus cenários noturnos saturados e a direção de arte que evoca a atmosfera do Dia das Bruxas em cada frame, é crucial para seu apelo duradouro como um clássico dos anos 90. Ortega orquestra as sequências de perseguição e os números musicais — notavelmente o icônico “I Put a Spell on You” — com um ritmo que mantém o espectador engajado, sem nunca sacrificar o humor em favor de um suspense excessivo. O filme se estabeleceu como um rito de passagem anual para muitos, uma peça essencial da temporada de outono que evoca um sentido de aventura infanto-juvenil genuíno, mas com apostas que, para seus protagonistas, são muito reais.
Em suma, Abracadabra se destaca por sua mistura inteligente de comédia, fantasia e uma pitada de horror gótico acessível. É uma obra que se mantém relevante através de sua abordagem única à mitologia das bruxas, oferecendo performances memoráveis e uma narrativa que, embora ambientada em um feriado específico, captura temas universais como o fim da inocência e a aceitação do inexplicável. O filme solidificou seu lugar como um marco cultural, um exemplar do cinema familiar que continua a encantar novas gerações com sua magia peculiar e seu charme inegável.




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