No front italiano da Primeira Guerra Mundial, onde as narrativas de glória nacional ecoam vazias contra a lama e o arame farpado, dois soldados personificam a antítese do combatente idealizado. Giovanni Busacca, um milanês astuto e falador interpretado por Vittorio Gassman, e Oreste Jacovacci, um romano preguiçoso e oportunista vivido por Alberto Sordi, encontram-se por acaso e formam uma aliança relutante. A sua única ideologia partilhada é a sobrevivência a qualquer custo. Longe de se preocuparem com o destino da pátria, a sua guerra pessoal é travada contra o perigo, o trabalho e a fome, numa busca incessante por uma refeição extra, uma tarefa segura na retaguarda ou qualquer esquema que os mantenha longe das balas. O filme de Mario Monicelli acompanha a jornada picaresca desta dupla improvável através da carnificina, onde a camaradagem nasce não do patriotismo, mas de uma desconfiança mútua que evolui para uma dependência cínica.
A genialidade de A Grande Guerra reside na sua recusa em tratar o conflito com a solenidade esperada. Monicelli, um mestre da comédia à italiana, utiliza o humor não para aliviar a tensão, mas para expor a absurdidade fundamental da situação. As interações de Giovanni e Oreste com oficiais, companheiros de trincheira e a população local, como a pragmática prostituta Costantina, revelam um microcosmo onde as grandes estratégias militares se desfazem em trivialidades mortais. A busca por um par de sapatos ou a tentativa de enganar um ao outro por um pedaço de queijo tornam-se dramas mais imediatos e compreensíveis do que a Batalha de Caporetto, que acontece ao fundo como um ruído distante e incompreensível. O filme demonstra como a rotina da guerra desumaniza não através de traumas espetaculares, mas pela monotonia do perigo e pela normalização da precariedade.
É neste cenário que uma noção de existencialismo prático, despojado de qualquer intelectualismo, se manifesta. Atirados para um universo caótico e sem sentido aparente, os dois protagonistas respondem com a única lógica possível: a da autopreservação. O seu cinismo e a sua cobardia não são apresentados como falhas de caráter, mas como uma resposta sã a um ambiente demente. Monicelli não está interessado em julgar as suas criaturas; ele está focado em observar como a natureza humana se adapta quando despojada das convenções sociais e das grandes ideias. A amizade que floresce entre eles é torta e cheia de arestas, construída sobre a base sólida do reconhecimento mútuo de que ambos são fraudes a tentar sobreviver num jogo cujas regras não entendem nem aceitam.
O percurso de Oreste e Giovanni culmina num momento que redefine a sua trajetória de forma abrupta e inesquecível. Após passarem todo o filme a fugir de qualquer responsabilidade, o acaso coloca-os numa posição onde as suas ações, ou a falta delas, adquirem um peso inesperado. O desfecho é desprovido de qualquer sentimentalismo ou transformação edificante. Pelo contrário, é um golpe seco e irónico que sublinha a indiferença da guerra perante os pequenos dramas individuais. A decisão final que lhes é imposta não surge de uma epifania súbita de coragem, mas talvez do esgotamento, da teimosia ou de um último ato de afirmação pessoal num mundo que sempre os tratou como peças descartáveis.
A Grande Guerra permanece como uma obra fundamental do cinema italiano precisamente por esta abordagem agridoce e profundamente humanista. Ao colocar em cena duas figuras que o público reconhece nas suas falhas e no seu pragmatismo, Mario Monicelli conseguiu criar um dos mais potentes comentários sobre a guerra já feitos. É um filme que mostra o conflito não pela ótica dos generais ou dos estrategistas, mas pela perspetiva de quem está no chão, preocupado apenas em ver o nascer do sol seguinte. A química entre Gassman e Sordi é lendária, e a sua performance ancora a narrativa numa verdade crua e desconfortável, fazendo desta comédia triste um documento indelével sobre a inutilidade do conflito e a resiliência tortuosa do espírito humano.




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