Em Homs, antes das ruínas se tornarem a imagem definidora da cidade, havia canções. O documentário de Talal Derki, Retorno a Homs, começa aí, no epicentro de um otimismo contagiante, seguindo dois jovens cujas trajetórias se tornariam um sismógrafo da própria alma da revolução síria. De um lado, Abdel Basset al-Sarout, o carismático goleiro da seleção nacional de futebol sub-20, que troca os estádios pelos palcos improvisados das ruas, sua voz potente liderando multidões em cânticos de protesto. Do outro, seu amigo Ossama al-Homsi, um ativista pacifista cuja arma é uma pequena câmera, determinado a documentar a história com uma convicção quase serena. O filme se instala ao lado deles, com uma proximidade que dissolve a distância entre espectador e sujeito, capturando a energia de um movimento que acreditava genuinamente na mudança através da mobilização popular.
A obra de Derki, filmada ao longo de quase três anos, documenta a brutal metamorfose dessa esperança. Conforme o regime responde com violência desmedida, o cerco se aperta e a cidade se transforma em uma armadilha. A câmera, antes focada em rostos exultantes, agora navega por escombros, corredores escuros e a paranoia constante do fogo inimigo. A transformação mais pungente é a do próprio Basset. O cantor de protestos, vendo seus amigos e sua cidade serem dizimados, gradualmente abandona as canções por um fuzil. Retorno a Homs não se apressa em explicar essa mudança, mas a apresenta como uma consequência quase inevitável das circunstâncias. A câmera de Derki documenta uma espécie de colapso da contingência, onde as múltiplas possibilidades de futuro para aqueles jovens se afunilam em uma única via, imposta pela lógica implacável do conflito armado.
O que torna o filme uma peça cinematográfica singular é sua recusa a adotar uma postura externa e analítica. Derki e sua equipe estão inseridos na ação, e a linguagem visual reflete isso. A câmera treme, se esconde, corre. O som é uma cacofonia de tiros, explosões e conversas sussurradas. Não há narração onisciente para guiar a interpretação; o filme confia inteiramente na força bruta de suas imagens e na intimidade com seus personagens. A jornada de Basset, de ícone popular a combatente, e a persistência de Ossama em filmar, mesmo quando a esperança se esvai, formam os dois polos de uma narrativa sobre a desintegração de um ideal. O filme examina como a violência sistêmica não apenas destrói corpos e prédios, mas também reconfigura a própria bússola moral de quem a sobrevive.
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance, Retorno a Homs é mais do que um registro histórico; é um estudo de personagem realizado sob as condições mais extremas. O filme consegue capturar momentos de humor sombrio, de tédio e de camaradagem em meio ao caos, pintando um retrato complexo e profundamente humano de homens encurralados. Ao final, a obra deixa uma impressão duradoura não por oferecer uma tese sobre a guerra, mas por sua honestidade visceral. É um documento cinematográfico que testemunha, sem floreios, a forma como o idealismo pode ser erodido até se tornar irreconhecível, deixando para trás apenas a necessidade crua de sobreviver a mais um dia no cerco de Homs.




Deixe uma resposta